terça-feira, 29 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Atualidades políticas que buscam nexo cotidiano

Postei no facebook ontem uma sequência de fotos que marcam uma trajetória política de muito trabalho e dedicação, com foco na comunicação social, responsabilidade que assumi quando integrei a coordenação da campanha do prefeito Gilmar, de Esteio. Após a eleição permaneci na prefeitura até ser convidado a me retirar por conta das forças políticas do PT. Assunto que tornou clara a impessoalidade nessas relações. Eu prefiro tratar as coisas assim, pois não há incompatibilidade política, profissional, ou limites de qualquer natureza senão aquele que se apresentou quando incorporei, junto com Luis Fernando Schmidt, a Democracia Socialista – tendência interna do PT. Requer maturidade política compreender que outros continuarão o projeto para a cidade. Na condição de militante reivindico aquilo que prometemos aos esteienses e, dentro do possível, ajudo o Governo sempre que solicitado, pois isso significa a possibilidade de retomar as políticas públicas em comunicação que se perderam com a rotatividade dos quadros que constituíram o plano de governo em comunicação.

Essa matemática me incomoda, pois não encontra razão na realidade da vida. Tenho dificuldades de explicar a situação aos meus familiares e acho que eles também não têm a obrigação de compreender as motivações que me mantém ao lado de pessoas que protagonizaram uma campanha negativa em torno da minha atividade militante. É mais fácil compreender tais motivações políticas se a própria política for revista. O conceito da política, assim como sintetiza Anna Harendt, é aquilo que existe entre as pessoas. Que estabelece as mediações entre as posições diferentes. Se é assim, fica mais fácil compreender que não estou atuando em um partido político para me promover pessoalmente, pelo contrário. Aqueles que pensam assim me chamarão de fracassado. Porém, não medi esforços para inserir na agenda pública assuntos renegados pelos interesses de grandes grupos financeiros. Não considero pecado ser um grande grupo financeiro, porém a regra no Brasil nos mostra que esses grupos são constituídos sobre a falência de outros, por tráfico de influências, ações coordenadas entre os entes públicos e privados que revela uma promiscuidade depredadora da ética. Ao ter de conviver com isso, pois tais situações estão intrínsecas nas práticas da política tupiniquim, fico plenamente satisfeito pelas brigas que comprei, pelas ideias que coloquei em público, pelo trabalho de contribuir com a ideia da cidadania esteiense. Sem mandato, apenas como um articulador político, como um comunicador, tenho focado o interesse público como prioridade para a cidade. Posso falar tranquilamente, já que não sou candidato a cargo eletivo.

Entre as fotos que postei ontem está a realização do Fórum Social Mundial em Esteio, trabalho que me custou muito caro pelo desgaste nas relações com a coalizão e a dificuldade dos quadros políticos de compreenderem a importância do movimento.



Segue artigo que publiquei naquela oportunidade e que foi divulgado pelo movimento brasil autogestionário pelo Lúcio Uberdan. Com muita alegria vejo o Lúcio liderando junto ao Governo Tarso Genro a construção da ideia do governo digital, com foco na transparência, na cidadania, na inclusão digital como ação estratégica de Estado. Em fim, com a intenção de qualificar o diálogo com a sociedade. Ao invés dos burocratas perderem tempo em querer enquadrar esse modo de pensar como algo utópico, poderiam abrir suas mentes, ou melhor, simplesmente abrir os olhos para o mundo de fora e compreender o papel da comunicação em tempo real na atualidade. Porém, abrir os olhos para alguns é pedir demais. Então, por conta dessas limitações da vida busco alternativas de fazer valer as ações políticas que possam tornar nossas relações mais humanas, sem precisar deixar a matemática de lado, com exemplo pessoal de compromisso com a cidade, de envolvimento coletivo onde ocorre a vida social do indivíduo e contribuir para a criação de um sistema que possa dar conta das necessidades do cidadão de hoje.

Segue o artigo:

http://www.brasilautogestionario.org/tag/charles-scholl/

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A cidadania promovida na história do Eco do Sinos

O Jornal Eco do Sinos marca mais um aniversário circulando interruptamente desde 8 de novembro, de 1985. É natural que em cada aniversário sejamos impactados sobre os efeitos do tempo, ofertado democraticamente a todos. O exercício de revisitar o caminho percorrido nos arremessa à prática da reflexão. Extraímos compreensões sobre as motivações da existência, impulsionados pelo extinto de produzir razão sobre as coisas. Podemos decantar alguns sentidos que a história do Jornal Eco do Sinos nos ajudou a compreender. Nesse tempo, a cada edição, o jornal constituiu o elo de inúmeros processos sociais criando e mantendo as mediações viabilizadoras do direito a informação. Como um reflexo das atividades sociais, políticas, culturais e econômicas, o JES produziu efeitos antropológicos na promoção do desenvolvimento humano e social dos cidadãos.



Sua atividade de comunicação, com foco na cidadania esteiense, sempre esteve permeada do princípio do interesse público como valor construído e agregado à notícia. A cada edição que circula, pulveriza informações e promove a concreta participação na vida coletiva da cidade. Por isso é um instrumento estratégico da cidadania esteiense, que qualifica o debate público e fomenta a participação das pessoas sobre as intersecções existenciais que a vida na cidade lhes oferta.

Na condição de apaixonado pelas teorias da comunicação, podemos compreender a história do JES pela simples verdade de que a informação é uma das necessidades do ser humano. Como encontramos na obra Os elementos do Jornalismo - “As pessoas precisam de informação por causa de um instinto básico do ser humano, que chamamos de instinto de percepção. Elas precisam saber o que acontece do outro lado do país e do mundo, precisam estar a par de fatos que vão além da própria experiência. O conhecimento do desconhecido lhes dá segurança, permite-lhes planejar e administrar as próprias vidas. Trocar figurinhas com essa informação e se converte na base para a criação da comunidade, propiciando as ligações entre as pessoas.” (Os elementos do jornalismo, de Kovach & Rosentiel (2004:36).

No entanto, por todas as vezes em que o JES cometeu equívocos, e foram muitos, teve a grandeza de se mostrar humilde e de agir com a intenção de corrigir e de compensar, sem incorrer em outro erro. Esse é o equilíbrio necessário para quem assume para si a tarefa de fazer a mediação entre Estado, Governo e Sociedade. Dessa maneira edificam-se os pilares para a consolidação de um mundo melhor. Já que compreendemos que fornecer a informação de interesse público é uma função social da imprensa e um direito do cidadão.

Em Esteio já tivemos momentos em que essa força da sociedade era compreendida e tida como estratégica para a qualificação da opinião pública. No governo da prefeita Sandra Silveira, o programa cidade educadora imprimiu uma dinâmica de relações com os veículos de comunicação, transformando-os em verdadeiros materiais didáticos de cidadania. O programa aplicado naquela gestão tinha a pretensão de fazer todos os espaços públicos oportunidades de aprendizado.

Os veículos eram impulsionados por uma avalanche de ações propostas de interesse público que se consolidaram e constituíram a base de planejamento das principais realizações públicas da atualidade do município. Também é mérito da cidade ter eleito o Prefeito Gilmar Rinaldi, que ocupava a vice prefeitura naquela gestão.

Mesmo nesta reflexão encontramos as tenções cotidianas entre o interesse público e a iniciativa privada, que muitas vezes se traveste de iniciativa pública e coloca na privada o interesse legítimo da cidadania. Ainda brincando com as palavras cabe destacar que a privatização do interesse público é pior que a venda de estatais. Já que a venda das empresas públicas acarreta na diminuição da economia que sustenta a cidadania, ao tempo que a privatização do interesse público promove a diminuição da cidadania, intensifica a fragmentação social, potencializa a atomização dos sujeitos, e constrói o caminho à banalização generalizada de uma civilização. Situação que muitas vezes só pode ser percebida claramente sobre os efeitos do tempo.
Charles Scholl

Consultor de Comunicação da

Esparta – Ação Tática e Estratégia

domingo, 24 de julho de 2011

A visceral fragilidade humana

Uma experiência de morte no último verão deixou este ponto de vista existencial muito claro; ao ponto de dividi-lo com você.
Charles Scholl
Ser um humano passa pela ideia de compreender-se como humano, entrar em uma sala de espelhos e conseguir se enxergar de vários ângulos diferentes, de poder externar o pensamento em sistemas simbólicos fônicos, visuais, gestuais que ordenam uma sequência racional do pensamento. É bem correto afirmar que os símbolos são singulares quanto ao seu significado e são utilizados para atribuir sentido lógico capaz de transferir de forma exata determinada informação representada. Mesmo querendo buscar metáforas estapafúrdias para explicar racionalmente nossa existência, perco-me nos labirintos obscuros da complexidade humana.
Ocorre que o cotidiano não é assim. A vida é absurdamente simples, desde que não precisemos explicar nada das coisas que fizemos, se existem motivos para nossa existência, ou mesmo como funcionamos.  A complexidade nasce quando começamos a compreender como compreendemos, pois diante desse exercício temos um universo infinito de possibilidades humanas.
A expectativa de vida é algo definidor para o humor de cada dia. Quanto mais expectativa de vida temos, melhor será a disposição para enfrentar as dificuldades cotidianas e os prazeres da vida certamente serão mais aproveitados, com a ciência e o gozo de quem tem o prazer e sabe lidar com a felicidade. Também temos o inverso, em que encontramos pessoas com baixa expectativa de vida, que geralmente são mal humoradas e se são submetidas a um momento de felicidade não sabem como reagir diante do sinistro.  Talvez tal comportamento sobre os modos de pensar esteja na base dos conflitos humanos que vivemos cotidianamente. Tais conflitos tendem a tomar dimensões estratosféricas. Minha prolixidade aguda rodeou o assunto com todos esses argumentos para finalmente dizer que essa impressão de importância que damos para os conflitos humanos é absolutamente insignificante diante de determinadas situações. Principalmente quando nos deparamos com os limites da vida, ou da ciência de que estamos vivos.
Apesar de sermos máquinas de sobrevivência de genes, com prazo de validade e data certa para a morte, o período que vivemos é compreendido, sentido, percebido, entendido por um equipamento orgânico que possui um sistema nervoso central comandado por um cérebro. Tal equipamento se sobressaiu no processo de seleção natural pela sua capacidade desenfreada de produzir razão. Chegamos ao absurdo de atribuir razões para aquilo que não compreendemos. Razões aleatórias aos princípios científicos que só poderão ser compreendidas diante do aspecto humano de ser. Assim, com esse ponto de vista, compreendo os poemas de amor como uma tentativa de atribuir razão para sentimentos que não cabem na racionalidade. Que a religião nos oferta um conjunto de razões existenciais que não as temos no mundo natural. Por isso criamos Deus, para nos dar razão de um princípio, para nos orientar por um caminho que nos levará à continuidade da razão de nossa existência em outros planos existenciais que criamos. Se não fosse Kant, em sua obra “A critica da razão pura”, teríamos dificuldades de compreender esses aspectos da nossa humanidade.
Tal ponto de vista me surgiu diante de uma situação muito especial. Tive um mal estar em uma dessas manhãs de verão. Meu pescoço endureceu completamente e tive uma forte sensação emotiva que se desencadeou em uma inexplicável crise de choro. Fui confortado pela minha esposa, Natália, que estava ao meu lado. Com um estranho aperto no peito tinha as emoções a flor da pele e todos os sentimentos se tornaram muito intensos. Me tornei um vulcão em plena erupção de emoções, descomedidas, desorganizadas, radicalmente fortes capazes de apontar um grau de certeza que vinha acompanhada da extrema lucidez, que beira a loucura. O mal estar passou por um período e cerca de 20 minutos depois tudo retornou muito mais forte. Por um instante percebi que estava com dificuldades de enxergar, como estava ao volante parei o carro. Novamente o pescoço endureceu e voltei a chorar convulsivamente sem qualquer motivo. Um zunido forte tomou conta de todo o ambiente e me senti caindo dentro de um buraco. Então perdi a consciência. Não sei por quanto tempo fiquei nessa condição, mas quando despertei estava com metade do corpo deitado sobre o banco carona, sem sair do espaço do motorista. Ao me levantar percebi que metade do meu rosto estava sem os movimentos, sem sensibilidade nenhuma, como se eu tivesse anestesiado para um tratamento dentário. Percebi que a perna e o braço do mesmo lado também estavam na mesma situação. Aos poucos fui recuperando os movimentos e me lembrando dos últimos momentos que procurava parar o carro. Aquilo parecia um sonho.
Ao analisar o ocorrido fui informado que tive um pequeno acidente vascular. Esse AVC me trouxe com clareza a fragilidade da vida humana. Pense que por uma fração de segundos poderia ter esquecido completamente da minha mãe, do meu irmão, da minha filha, da minha mulher, dos meus princípios, das histórias que vivi, das orações que fiz, das lógicas que compreendi, das experiências que tive em vida e de todos os conflitos que perturbavam minha alma humana. Tudo poderia se perder em um piscar de olhos. Percebi, depois de algum tempo que havia esquecido completamente dos acontecimentos em um dia da semana, que com exercícios racionais consegui remontar em minha memória.
Toda e qualquer pessoa pode passar por um problema como esse, independentemente de qual seja o motivo que venha a lesionar o cérebro. Trata-se da condição humana de vida. Porém, dificilmente quando isso ocorre é possível recuperar a consciência e poder dividir a experiência. Somos muito frágeis e não precisamos necessariamente morrer para dar fim na ideia de vida. Somos poderosos em estabelecer frequências emotivas com maior ou menor intensidade e a tendência é repetirmos sistematicamente a predominância de determinados sentimentos, sejam os mais felizes ou os que nos deixam tristes, causando as depressões e euforias. Depois de poder compartilhar uma experiência como essa cabe se perguntar como você gostaria de se sentir a maior parte de seu dia? Essa decisão depende somente de você, independentemente dos fatores esternos dos quais não temos controle e simplesmente reagimos. Se você passa um dia alegre e isso se repete por muitas vezes, você se acostuma a se sentir alegre e sentirá alegria com mais facilidade. Certamente buscará com mais ênfase fazer coisas que te deixam alegre, reagirá diante da tristeza como algo anormal, que não faz parte do cotidiano, mas de um sentimento esporádico que surge diante das coisas da vida que não podemos evitar. A grande questão é que a regra vale para todo sentimento ou estado de espírito. Nesse exemplo pensamos em alegria, porém a lógica humana também se mostra eficaz se falarmos de tristeza. 

domingo, 12 de junho de 2011

O pensamento e a força que nos faz insurgir


Charles Scholl
Consultor de Comunicação

Novos ciclos políticos precisam ser compreendidos para que seja conquistado o melhor desenvolvimento possível para nossa comunidade. Esteio deu saltos gigantes em desenvolvimento social, político e econômico nas últimas décadas. Olhar para a história, muitas vezes é o melhor exercício para reafirmar o caminho trilhado. Também pode ser a melhor forma de visualizar a necessidade de mudanças de rumo, na busca da sintonia fina com os princípios que nos orientam nesta caminhada. Na condição de jornalista, cobrindo os assuntos da política em Esteio nos últimos 25 anos junto ao Jornal Eco do Sinos, tive um insite que me fez viajar no tempo, confirmar teses que sustentava, porém que o tempo havia apagado da minha memória cotidiana. Sonhos que ficaram depositados no fundo da alma e que foram sedimentados pelo peso do tempo empurrando as lembranças para as profundezas subterrâneas da memória.
Nossa cidade se insurgiu ao ciclo trabalhista com a eleição de Vanderlan, em seu primeiro mandato. Depois ocorreram diversos processos políticos, muitas descontinuidades e, atualmente, vive uma condição política que remonta os memoráveis tempos da fundação do município, em que temos sintonia política com o Governo do Estado e com a União. Mas o relato que trago nos arremete para a realidade política envolta ao ciclo trabalhista que dirigia o município, com autoridades políticas que se espelhavam no estilo caudilho, sulista, manifesto da história política de Getúlio Vargas.  
Vale o relato, pois estava em uma Audiência Pública em Esteio, que preservo a fonte para evitar qualquer constrangimento, pois não é o objetivo deste texto. Um membro da comunidade, que participou como secretário de obras no Governo de Esteio em tempos memoráveis, inicia uma explanação sobre como resolver problemas administrativos na prefeitura. Contrariado pelo atual representante do Poder Executivo, o ex-secretário disparou a primeira: “O senhor está de má vontade conosco, pois já fui secretário e sei que basta fazer, se pode ou não pode pela lei isso se resolve depois”.
Como jornalista crítico das posturas políticas daquela gestão estava diante do réu confesso. E ele continuou a narrar suas experiências de gestão para mostrar como se faz. Disse que cavou com as mãos, com máquinas um “valo” para acalmar o povo da vila. A forma como se referiu a “vila” mostrava as cicatrizes de um tempo de exclusão social. O vereador que dirigia a reunião disse que a “vila” pela qual o interlocutor se referia, era onde fica sua casa e o “valo” se tratava de um Arroio, que está sendo recuperado a pesados recursos federais. O interlocutor olhava pasmo como se estivesse tentando entender como aquele vileiro estava dirigindo a reunião. Eu, na condição de expectador senti um orgulho nostálgico por ter participado ativamente da eleição daquele parlamentar, cujo símbolo representava as camadas sociais que sempre quis conduzir ao poder.  
Outros interlocutores procuraram explicar as preocupações ambientais no trato com os recursos hídricos e as consequentes enchentes pelas depredações feitas ao meio ambiente. O interlocutor então resumiu sua ideia de meio ambiente e disparou: “Sou ecologista por natureza, crio 60 passarinhos e planto árvores, pois sou responsável pela plantação de inúmeros eucaliptos na cidade”. Todos ficaram sem o que dizer, mas creio que no íntimo de cada um rezava a frase: “Ainda bem que esse tempo passou, que aprendemos com essa história, que estamos fazendo diferente hoje”. Na primeira oportunidade que tive contei para minha filha a história do deserto verde, da inserção de espécies alienígenas ao nosso continente e a consequente esterilização do solo.
O acontecido serve para nos lembrar que os vilões ao meio ambiente existem. Eles estão entre nós e mesmo que não participem ativamente da política hoje, somos obrigados a conviver cotidianamente com as consequências daquela forma de fazer as coisas. Lembro-me da frase de Platão: “Pessoas boas não precisam de leis para dizer a elas como agir com responsabilidade, enquanto pessoas ruins encontrarão um modo de contornar as leis”.

Pela sinapse necessária à esquerda contemporânea

Charles Scholl

É fundamental compreender os princípios que tecem as relações políticas. Repassar os valores que nos orientam às praticas cotidianas que dão sentido ao agir coletivo. Que nos identificam no tecido social como agentes de uma transformação perene, que transcende gestões; que nos fez constituir os mandatos, o partido, a história que conquistamos, a que estamos conquistando e a que temos pela frente. Antes de tudo, há um sentimento presente em todos envolvidos no compromisso de fazer justiça social, de representar segmentos estratégicos para a transformação da sociedade, de fortalecer grupos sociais oprimidos pelo poder econômico, pela sua condição social, política, cultural, de gênero, etnia e de orientação sexual. Tal sentimento, se decantado do caldo espesso que representa nosso cotidiano, pode ser chamado de indignação. É a capacidade que alguns possuem de se indignar com a injustiça alheia, estabelecer relações sociais estratégicas para a construção do “outro mundo possível”.
A idéia de transformação social é a própria idéia da construção de outro mundo possível. Falamos a mesma coisa e devemos compreender isso para saber o papel estratégico que temos enquanto gestores públicos das máquinas administrativas que dirigimos. A ideia de eliminar a miséria no Brasil está no centro dos debates políticos e pode unificar o País e organizar uma ação internacional. Contribuímos com a mesma ideia quando favorecemos, por políticas públicas, a distribuição de renda. Temos que compreender, com responsabilidade, que existe na sociedade organismos que buscam a concentração de renda, em postura polarizada com a orientação política da distribuição.
Pela via democrática, com o favorecimento da circulação da moeda ancorada em uma política de distribuição de renda, é possível orquestrar uma política econômica de consenso no Brasil. Com essa prática constituímos políticas públicas para o Brasil mudando a situação econômica de 35 milhões de brasileiros que ingressaram na classe média. Além disso, lançamos programas sociais para tirar outros 16 milhões de brasileiros da miséria.
Também nos organizamos para estabelecer um papel protagonista do nosso momento histórico e político. É evidente que tal pretensão passa pela necessidade de compreender o tempo em que vivemos. A ideia mais marcante e revolucionária da atualidade, que perpassa toda humanidade, sendo a grande maioria de forma direta e uma minoria de forma indireta, é a concepção de mundo que se constitui com o surgimento da cultura digital. Por meio dela compreendemos que estamos imersos em um dilúvio de informação que foi disponibilizada à civilização global. As novas plataformas tecnológicas revolucionam a comunicação, a política, a economia e os costumes de uma civilização global com uma velocidade nunca experimentada pela humanidade. O impacto da tecnologia digital para a humanidade pode ser compreendido com a intensidade da invenção da escrita, que nos apartou da pré-história.
Tal velocidade atropela a própria ideia de futuro, ao colocar em nosso presente o debate da bioética, da ecologia; do desenvolvimento das tecnologias de comunicação em tempo real e as tendências à criação de sociedades virtuais em redes como a Internet; as radicais alterações no próprio mundo do trabalho, entre tantas novidades em nossa pauta. Vale lembrar que a produção intelectual do espectro político petista já produziu documentos importantes em seus debates internos. Todos muito importantes, amplamente debatidos e deles foram produzidas sínteses políticas valiosas, ao custo da preciosidade intelectual que orienta nossos valores cotidianos.
As novas dinâmicas imprimem aos organismos que produzem políticas públicas um ritmo que precisa fazer caber mil e quinhentos anos em 18 meses. Apenas para que se tenha uma idéia, se tomarmos o conhecimento acumulado pela humanidade no primeiro século da era cristã, foram precisos 1500 anos para que ele fosse dobrado. Mais 250 anos foram necessários para que aquele conhecimento acumulado fosse dobrado pela segunda vez (1750) e, novamente, mais 250 anos para que ele fosse dobrado pela terceira vez. (1900) Atualmente, o conhecimento acumulado pela humanidade dobra a cada 18 meses.


Os ideais humanistas para uma esquerda contemporânea. 


A militância como afirmação de uma idéia moral:



Reconhecer os princípios civilizatórios, como o ideal democrático, por exemplo, e na projeção utópica de valores morais que se anteponham à violência, à discriminação, à intolerância e ao preconceito, por um lado e à injustiça, por outro. Antes de tudo, esses valores constituem uma plataforma moral. Dela derivamos princípios coerentes e racionais, capazes de "filtrar" posições. O processo de elaboração política diz respeito à esfera das possibilidades concretas e responde a cenários que são, quando muito, prováveis. A política é, por isso mesmo, uma atividade específica que movimenta-se, incontornavelmente, em meio à necessidade.
A plataforma atualizada dos Direitos Humanos, formada pelo conjunto de resoluções, pactos e tratados firmados no âmbito das Nações Unidas, nos oferece os princípios mais radicais e coerentes para orientar a luta por uma sociedade desejável. Conhecer essa plataforma e integrar-se militantemente a ela é condição imprescindível para a configuração de uma política moderna de esquerda no século XXI. O processo histórico de afirmação dos Direitos Humanos envolve, pelo menos, 3 gerações distintas: a dos direitos civis e políticos; a dos direitos econômicos, sociais e culturais e a dos direitos dos povos e das nações. Contemporaneamente, temos assistido à formação de uma quarta geração de Direitos Humanos correspondente a um novo regramento suscitado pela moderna revolução científica e tecnológica. Todos esses direitos, concebidos como universais, são interdependentes e não há como se afirmar qualquer um deles em sua plenitude mediante a desconsideração a qualquer dos demais. Assim, por exemplo, a liberdade política será necessariamente constrangida se os direitos econômicos, sociais e culturais não forem efetivos e, em sentido inverso, não há que se falar em efetividade dos direitos econômicos, sociais e culturais na ausência da liberdade política.

Uma radical defesa da paz, da democracia e do Estado de Direito:

A perspectiva democrática e pacifista assinala um patamar incontornável para uma política de sentido transformador em nossa época. Ela envolve, necessariamente, o reconhecimento e a integração dos valores políticos universalizados pela experiência democrática nos marcos de uma pretensão de justiça social. Esses mesmos valores devem ser reivindicados contra as políticas neo-liberais, responsáveis pelo estímulo à guerra e pelo alargamento do mercado de armas, por um lado, e pelo amesquinhamento da democracia e por sua transformação em um espetáculo elitista e midiático, por outro. Defender a democracia no século XXI significa posicionar-se, ofensivamente, em favor da participação ativa dos cidadãos e cidadãs nos negócios públicos, lutando para afirmar uma sociedade civil autônoma, plural e fiscalizadora do próprio Estado. Significa, em contraposição, reconhecer a legitimidade do desinteresse político, do absenteísmo eleitoral e das eticidades centralmente firmadas na esfera privada da existência. Significa reconhecer o caráter necessário e legitimador da representação política, afirmado na exata medida de sua heterogeneidade, moralidade e espírito público de onde derivam os compromissos por eleições livres e periódicas, com o voto universal, secreto e não obrigatório. Defender a democracia no século XXI significa lutar para que a produção da informação seja realizada nos marcos da pluralidade e para que o acesso a ela seja universalizado de onde derivam compromissos de luta contra a monopolização dos meios de comunicação e pelo estabelecimento de mecanismos de defesa da cidadania contra a manipulação da informação. Defender a democracia hoje, por derradeiro, significa lutar pela afirmação da paz, do Estado de Direito e pela consagração da Lei como instrumento civilizatório. Para essa perspectiva, o tencionamento político em uma ordem democrática e, mesmo, as condutas disruptivas diante de Lei que se afigure como injusta, só serão legítimas mediante a opção pacífica pela desobediência civil. O emprego de métodos de luta que afirmem a violência –(como, por exemplo, em casos de guerra civil) só poderão encontrar legitimação pública como resistência a uma ordem que afirme, em si mesma, a negação da política. Restringe-se, assim, ao recurso universalmente aceito de insurgência frente às tiranias. Ainda nessa hipótese, cada vez mais improvável no mundo contemporâneo, o emprego de métodos violentos estará circunscrito às convenções de guerra. Mas isso exclui definitivamente práticas anti-humanistas como, por exemplo, o terrorismo.

Uma valorização da justiça:

O ideal da justiça deve ser parte essencial do pensamento político de uma esquerda contemporânea e democrática. Não apenas a idéia de “justiça social”, com a qual pretendemos designar um patamar mínimo de dignidade para a vida de todos os seres humanos; mas a idéia moral da justiça em si mesma, como o equivalente ao objetivo de assegurar a cada um aquilo que lhe é devido, nas diferentes dimensões de seu ser. Na esfera privada e na esfera pública; desde aquilo que tange a sua honra e a sua afetividade, até aquilo que diz respeito ao seu mérito ou a sua culpa. Não chegaremos a qualquer lugar digno se nosso compromisso com a justiça não se fizer presente em cada gesto ou atitude, se não iniciarmos por construir essa justiça nas relações que temos e nas decisões que tomamos.

Uma firme militância ecológica:

Devemos incorporar os pressupostos ecológicos como estrutura de um novo ethos para o século XXI. Algo que nos permita descartar por definitivo aquilo que na eticidade moderna esteve associado ao objetivo de acúmulo de bens e riquezas materiais e que se afirmou como política predatória da natureza. Não se trata de persistir na tradicional “adesão” oportunista à “pauta verde” que consiste, basicamente, em tranformá-la em um apêndice do discurso economicista de sempre, mas, pelo contrário, em reconhecer na ecologia um desafio central da humanidade diante de seu próprio futuro e do futuro das demais espécies. Daí derivam vários compromissos políticos, entre eles o de reordenar radicalmente os hábitos de consumo das sociedades modernas, seu dispêndio de energia, a qualidade de vida dos centros urbanos, sua política de transportes, etc.

Uma aposta nas modernas tecnologias e no avanço das ciências:

Devemos nos integrar plenamente aos debates contemporâneos em torno das repercussões extraordinárias inauguradas pela revolução científica e tecnológica em curso. Notadamente no caso das comunicações, seja pelas possibilidades de generalização de práticas associativas e interativas até pouco tempo impensadas, seja pelas possibilidades de instituição de mecanismos radicalmente democráticos de formação da opinião pública e de consulta da cidadania, devemos desenvolver grupos de pesquisa e estudo capazes de impulsionar o desenvolvimento das hipóteses mais generosas presentes nas novas tecnologias, estimulando políticas públicas e legislações específicas. Uma esquerda contemporânea e democrática, ao mesmo tempo, deve estar atenta às repercussões éticas da moderna biotecnologia. Nenhuma tecnologia é boa em si. Seus benefícios devem atender a propósitos morais. Desse modo, devemos lutar contra a subordinação das novas tecnologias a interesses meramente econômicos e comerciais.

Um apreço especial pela diferença:

Uma esquerda moderna e democrática deve estimular e ter como um valor a diferença que caracteriza o fenômeno humano, compromisso que só será real em uma militância política pela diferença. Os esforços de homogeneização, a supressão do que há de distintivo nas culturas, a massificação produzida pela indústria cultural, a padronização das condutas, a reprodução de clichês, a repetição incansável do mesmo, a limitação do próprio imaginário social aos imperativos do consumo e, por fim, a liquidação final dos indivíduos transformados em parcelas atomizadas de uma massa amorfa em sua impotência, sedada por seus preconceitos, devem merecer de nossa parte uma crítica impiedosa. Uma esquerda moderna e democrática, por isso mesmo, repudia o “coletivismo” como a expressão dessa mesma tendência na tradição da esquerda. Os coletivos que formamos só o são “coletivos” porque formados de indivíduos os quais, por definição, são únicos. Daí decorrem inúmeras consequências como, por exemplo, o apreço pela criação e o reconhecimento de autoria ou o gosto pelos questionamentos radicais e pela própria filosofia. É também uma militância pela diferença que permitirá situar esforços no sentido de uma “feminização” da política, capaz de contrastar certos arquétipos masculinos (competitivos e autoritários) que definem boa parte dos estilos e valores da esfera pública; os esforços que devemos fazer no sentido de que sejam reconhecidas como legítimas as homossexualidades, e que se assegure, às diferentes orientações sexuais, o respeito que o amor e o prazer devem inspirar; que promova os negros e as etnias subjugadas; que acolha, verdadeiramente, os portadores de deficiência e assim sucessivamente para todos os demais grupos discriminados e/ou marginalizados.

Desafios políticos basilares para a constituição de uma plataforma pragmática, estratégica, tática e operacional comum:

1) Tolerância zero com a fome e enfrentamento radical contra a miséria – operar de forma estratégica nas máquinas administrativas para fazer valer a implantação dos programas sociais de combate a fome.

2) Política de segurança pública e redução dos indicadores de violência – operar junto aos mecanismos organizados da sociedade a implantação de um programa municipal de segurança pública qualificado.

3) Retomada do desenvolvimento com distribuição de renda – operar em nossos mandatos políticas públicas de incentivo ao setores fragilizados economicamente que lhes garantam autonomia

4) Reforma Política – aprofundamento do processo democrático em seus mecanismos eletivos.

5) Política externa e integração soberana – no acompanhamento das posições do Congresso Nacional e do Governo Federal.

6) Fortalecimento das relações com os organismos não governamentais representativos dos mais diversos tecidos sociais, com ênfase estratégica aos segmentos fragilizados economicamente que agem de forma fragmentada e individual.