domingo, 27 de junho de 2010

Sala de espelhos


Tem momentos em que perdemos os sentidos. Mesmo com o pleno funcionamento dos equipamentos do corpo a mente é capaz de gerar uma postura autista e então é bem possível que quem viver tal situação tende a abandonar os fatos em sua volta. Vive como se estivesse em uma sala de espelhos. Acreditando na materialidade do seu reflexo. É como acreditar que a imagem é o caminho enquanto pode ser o relfexo do caminho. Para sair dai é preciso quebrar o espelho. Para quebrar o espelho é preciso saber que ele é estruturado e materializado pela mente. A quebra pode ser um exercício de desconstrução. Desconstrua suas verdades e veja o que sobra? Quebre seus espelhos sem medo de ver a verdade. Quebre suas verdades sem medo de ver a pessôa que és.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Então Deus disse: “Crie vida, pois tu és minha imagem e semelhança.”

Charles Scholl
Consultor de Comunicação da
Esparta – Ação Tática e Estratégia

As notícias em torno da criação de novas células em laboratório, que para alguns significou a criação de vida me causou um choque de realidade. A invenção científica já nos colocou em um tempo que está sendo chamado de a revolução das células. A pretensão é atribuir às novas tecnologias de manipulação das células sintéticas a importância histórica que a agricultura teve à humanidade, ou a invenção da escrita. Obviamente as especulações procuram demonstrar à humanidade a importância do feito científico. As possibilidades da nova tecnologia já estão sendo focadas na produção de novos combustíveis, em iniciativas de proteção ambiental, na medicina, na produção de alimentos e de armas novas. Especialmente sobre as novas armas biológicas, as maiores potências do mundo demonstraram não saberem lidar com clareza sobre tais possibilidades. Na brecha da dúvida emerge o medo, subproduto de um tempo em que os embates humanos se dão sobre as estratégias terroristas. Os possíveis acidentes, em que organismos artificiais pudessem escapar ao meio ambiente e produzir mutações perigosas são medos que acompanham o imaginário de quem observa o desenvolvimento das pesquisas cientificas.

Em um capitulo a parte, mas não menos importante, está a ética, seu dilema e o abalo às crenças religiosas. Talvez, para algumas pessoas saberem que a criação de vida não é mais um ato exclusivo de Deus, tenha um impacto nas dimensões da descoberta de Charles Darwin, aquele infame que um dia disse que somos parentes de macacos. Quanto aos dilemas éticos, todos orbitam em torno da idéia de que estaremos intervindo na loteria da vida. Ou melhor, na medida em que criarmos novas formas de vida, que talvez nunca existissem se não fossem os laboratórios criados pelo homem, poderíamos estar lidando com forças que ainda desconhecemos. Quanto ao fato de lidarmos com tais forças desconhecidas, é um argumento retórico, pois a gênese da pesquisa científica é lidar com forças desconhecidas. E a intervenção humana sobre o processo de seleção natural existe desde que inventamos a agricultura, quando selecionamos nossos animais domésticos, as espécies favoráveis às estratégias de sobrevivência da humanidade.

Me parece lógico que o foco prioritário de desenvolvimento científico em torno da revolução celular esteja ancorado na saúde, no meio ambiente, na economia e as preocupações que giram em torno da guerra. Se em um tempo guerreamos segurando ossos pela disputa de água, alimento ou terra fértil, com a nova tecnologia podemos sonhar em tornar os desertos férteis. Esses são alguns dos grandes temas da nossa civilização. Mas não poderia me furtar de dividir com os amigos leitores o que me parece ser mais fascinante neste cenário de novas possibilidades. Além da manutenção e equilíbrio da vida em nosso planeta, penso que já é possível modificar a atmosfera de outros planetas em nosso sistema solar. A criação de organismos vivos que se alimente das substâncias abundantes presentes nos astros vizinhos e que o subproduto constitua uma atmosfera que possa abrigar vida. Então poderíamos iniciar nossa jornada pelo espaço e colonizar outros planetas. As viagens interestelares teriam mais um sopro de vida com esse avanço do conhecimento humano. Vale lembrar que somos, antes de tudo, poeira estelar viva, inteligente e consciente que se aproxima cada vez mais da possibilidade de se adaptar em qualquer ambiente.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Vendas na internet revela face obscura do capitalismo

Charles Scholl
Consultor de Comunicação
http://charlesscholl.blogspot.com/
13metatron@gmail.com
O dia das mães revelou a dimensão do crescimento das vendas pela internet no Brasil. Nas duas semanas que antecederam o dia 9 de maio, foram registrados cerca de 1,6 milhão de pedidos em lojas virtuais no Brasil. O comércio eletrônico faturou, nesse período, R$ 625 milhões, que representa um crescimento de 42% em relação ao mesmo período no ano passado. O fenômeno salta aos olhos na medida em que o varejo tradicional registra um crescimento de 9,43%. Por curiosidade vale saber que os eletrodomésticos, pela primeira vez, lideram as vendas pela internet com 15,2%; os livros, assinaturas de revistas e jornais ficaram em segundo lugar com 14,9% e os cosméticos ficaram em terceiro com 13%. Produtos de informática ficaram com a fatia de 10% e eletrônicos com 8%.

O negócio de vendas pela internet é para gigantes. A concentração é absurda e lembra o tempo em que vivemos. Falo do cacoete capitalista gerador de toda miséria humana e ambiental da atualidade que convive com a propaganda de um mundo fantástico, que só pode ser vivido por alguns. No ano passado a venda pela internet faturou cerca de R$ 10,8 bilhões, sendo que 50 empresas levaram 90% do faturamento geral. Os outros 10% ficaram divididos entre 60 mil pequenas e micro-empresas, que entre essas somente 5 mil foram estabelecidas formalmente. Soma-se a essas informações a prospecção de 60% das pequenas e micro-empresas tendem a fechar com 12 meses de funcionamento.

Entre os principais problemas que freiam as investidas dos pequenos e micro-empreendedores nas vendas pela internet está a falta de planejamento. Os empreendedores ainda subestimam a complexidade do comércio eletrônico. A falta de foco também tem sido fatal e percebemos isso com os mais bem sucedidos entre pequenos, que se concentraram em nichos de mercado. Assim o pequeno empreendedor pode alcançar a excelência em atendimento exigida pelos consumidores. Competir com os 50 gigantes tem sido absolutamente inviável. A não compreensão da importância da plataforma, do programa de sua loja virtual com improvisos na modelagem do negócio foi responsável pelo fechamento de muitos negócios. O investimento mínimo gira em torno de R$10mil, sem falar dos sistemas de otimização de busca. A mão de obra deve ser qualificada, os colaboradores da empresa devem ter domínio sobre as ferramentas administrativas da loja virtual. A divulgação deve seguir os caminhos da internet. A publicidade convencional não é suficiente para manter um negócio na internet. E tudo isso precisa ser monitorado sistematicamente para verificação de controles de estoque e fluxos financeiros.

É um negócio que tem suas peculiaridades, mas que ainda não caiu no senso comum dos empreendedores brasileiros. Seu crescimento tem chamado a atenção dos grandes. No 26º Congresso de Gestão e Feira Internacional de Negócios em Supermercados, Eneas Pestana, representante do Grupo Pão de Açúcar, revelo a pretensão vender R$ 2bilhões pela internet em 2010. É exatamente o valor movimentado por cerca de 60 mil empreendedores no ano passado. É preciso uma revolução do conhecimento, de formação e da informação para que seja possível democratizar e tornar as vendas na internet uma possibilidade de futuro ao povo brasileiro, que atualmente é visto somente como consumidor.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Carta do Paulo

Carta Aberta à Comunidade Cultural


Eu, Paulo Ricardo Renner Fogaça, venho através desta Carta Aberta tornar público que em nenhum momento houve por parte de qualquer pessoa que coordena a Feira do Livro, que está acontecendo na Rua Coberta em Esteio até o dia 15.05.2010, convite de qualquer natureza para que eu, na qualidade de músico, fizesse apresentações na referida Feira. Meu nome foi incluído como atração do evento no site da Prefeitura e no material de divulgação da feira em duas datas: nos dias 10 e 13 de maio.

Nunca, em nenhum momento, faltei a qualquer compromisso assumido na qualidade de artista desta cidade e por ter sido interpelado por pessoas que estiveram no palco da feira para assistirem o meu trabalho e não terem me encontrado, é que tive certeza que o nome Paulo Fogaça não se tratava de mera conhecidência entre dois artistas com o mesmo nome.

Acredito que o Senhor Secretário Municipal de Arte e Cultura e a coordenação da Feira do Livro, de forma intencional e deliberada, tentaram denegrir a minha imagem como artista e principalmente como ativista Cultural nesta cidade.

Sendo assim, peço desculpas a quem foi à Feira para me assistir, mas por questões de falta Gestão da Cultura em Esteio, coisas assim ainda acontecem. E aproveito a oportunidade para conclamar a Comunidade Cultural de Esteio para que mantenham a mobilização por uma Gestão Cultural Democrática e Plural.



Paulo Ricardo Renner Fogaça

terça-feira, 20 de abril de 2010

Computador, internet e a família do brasileiro

Charles Scholl
13metatron@gmail.com
www.charlesscholl.blogspot.com

A comunicação desde sempre é assunto de interesse de Estado. É um eixo estratégico do desenvolvimento humano. Embora os estadistas mais reconhecidos tenham tratado a comunicação como uma ferramenta de controle social pelos conservadores, os progressistas apontam para outra postura diante das modernas ferramentas de comunicação da atualidade. Ao invés do controle, a tecnologia aplicada ao desenvolvimento humano.
É muito interessante perceber como as políticas públicas se desdobram em mudanças na vida das pessoas. Os incentivos econômicos do Governo Federal tornaram os computadores mais acessíveis para uma população que deu um passinho à frente em seu poder aquisitivo. Tal comportamento pode ser percebido com ênfase em levantamentos recentes em que 36% dos domicílios brasileiros possuíam computador em 2009. É um número significativo para o Brasil, já que 28% dos brasileiros tinham a máquina em casa em 2008 . Esse crescimento significa que estão sendo instalados milhares de pontos de comunicação direta na casa das pessoas. A postura do estado brasileiro é a mesma da implantação da TV, que se constituiu como uma estratégia da criação da identidade brasileira , com ênfase ao período da ditadura militar. Ou como foi com o rádio no período do Estado Novo. Porém, não temos como comparar as tecnologias do rádio, da TV e seus efeitos sociais com as possibilidades de interação e de produção intelectual que um computador proporciona para uma família.
Por outro lado, o crescimento econômico parece não ser suficientemente rápido para instrumentar as famílias brasileiras com as parafernalhas necessárias à inclusão na rede. Então, percebem-se posturas que procuram incentivar àquelas parcelas da população que ainda estão desassistidas dos avanços tecnológicos, mas que são alfabetizadas e curiosas sobre as coisas do mundo. Mandar cartas eletrônicas, trocar informações com entes tão distantes quanto nosso território brasileiro possibilita. Viajar para além das fronteiras políticas e entrar em todos os países, todos os povoados, todas as etnias. Se comunicar em todos os idiomas sabendo um pouquinho de português, quase nada de computador e com a destreza de quem parece estar catando milhos ao digitar seus pensamentos. Nada disso impede o desenvolvimento de raciocínios e o uso de ferramentas disponíveis na rede torna o pensar algo mais democrático, popular, horizontal, que permite o ponto de vista de cada internauta.
Essas são algumas das possibilidades que essa revolução tecnológica proporciona. Obviamente que, tal como foi na invenção da escrita, nossa civilização terá uma mudança significativa no desenvolvimento humano. Faça o teste. Levante um questionamento sobre algo que desconhece. Formule a pergunta em uma pequena frase. Coloque no Google e pronto. A resposta é imediata e o tempo, ao invés de estar atrelado a busca da informação, ficará submetido a capacidade de compreensão da mensagem. Claro que é muito saudável checar tudo e para isso utiliza-se a mesma ferramenta. Os usuários brasileiros já sabem dessa realidade já que 95% utilizam sites de busca .
Em sua atuação interina como Ministro da Cultura, Alfredo Manevy, defendeu em recente audiência pública no Congresso, o Vale Cultura. O novo instrumento de inclusão social consiste em um repasse mensal de R$50,00 para trabalhadores com renda de até cinco mínimos, para uso em lan houses. A proposta está no PL 5798/09 , já aprovada pela Câmara Federal e pelo Senado, mas que retomou a tramitação na Câmara por conta das emendas feitas pelo Senado. Além da inclusão de brasileiros na rede, a proposta é uma política pública que reconhece a importância estratégica do uso da internet para o desenvolvimento humano.
O uso da lan house como possibilidade de acesso à rede sempre foi a alternativa do internauta brasileiro. Com o crescimento do uso de computadores nas residências, pela primeira vez desde 2007, os domicílios superaram as lan houses no acesso a internet no Brasil. O acesso residencial representa 48% enquanto que 45% dos internautas utilizam lan houses. O crescente uso dos computadores nos lares pode imprimir novas dinâmicas comunicativas no seio da família brasileira. Os reflexos transcendem a simples mudança comportamental para novas posturas diante da cultura, do consumo, da política, do meio ambiente, da qualidade de vida, em fim, do desenvolvimento humano dos brasileiros.


+ Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.BR -http://www.cetic.br/usuarios/tic/2009/analise-tic-domicilios2009.pdf
Unirevista – Unisinos - http://www.unirevista.unisinos.br/_pdf/UNIrev_Tavares.pdf
IBOPE - http://www.ibope.com.br/calandraWeb/BDarquivos/sobre_pesquisas/pesquisa_internet.html; http://www.metaanalise.com.br/inteligenciademercado/inteligencia/pesquisas/67-5-milhoes-de-pessoas-tem-acesso-internet-no-brasil.html

Câmara dos Deputados - http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/141481.html

terça-feira, 6 de abril de 2010

As sinapses sociais da atualidade

Charles Scholl
13metatron@gmail.com
charlesscholl.blogspot.com
Vivemos um tempo em que vencemos a distância para nos relacionar. A tecnologia nos permite estabelecer relações sociais em tempo real em uma velocidade ainda não experimentada pela humanidade. O desafio contemporâneo está na acessibilidade, apesar de que nos debates sobre tecnologia da informação e comunicação o tema da acessibilidade é considerado superado por muitas autoridades no assunto. No mundo antigo da União Européia as metas de acessibilidade são ambiciosas, a exemplo do Reino Unido que anunciou publicamente o desafio de inserir toda a população na rede até 2012. A aldeia global toma forma com a massiva aderência das populações à rede em todos os continentes. As sociedades que emergem desta revolução da comunicação passam a contar com o poder da onipresença eletrônica que rompe as barreiras geopolíticas e constitui novas possibilidades de relação social em um terreno virtualizado.

O Brasil vive essa experiência intensamente e, de acordo com pesquisa realizada pelo Ibope, o pais registrou um crescimento de 8% ao longo de 2009. Até o quarto trimestre de 2009 a pesquisa aponta 67,5 milhões de pessoas conectadas em suas residências, no trabalho, em escolas e lan-houses. O comportamento destes internautas maiores de 16 anos é digno de estudos, mas algumas hipóteses já podem ser pensadas. Os sites de busca disparam com 95% da preferência dos internautas brasileiros. Dentre os dez países em que é feita a mesma pesquisa o índice de freqüentadores de comunidades virtuais no Brasil é campeão com 83,3% dos usuários. O que se percebe é que existe um ambiente propício ao estabelecimento de redes sociais entre os usuários brasileiros, mas prevalece ainda a relação fragmentada comum em uma sociedade atomizada.

As novas ferramentas de comunicação podem estabelecer uma nova coesão social. Entre os diversos organismos da sociedade civil que compões nosso tecido social, a comunicação tem sito um entrave que historicamente tem mantido uma importante distância das direções e suas comunidades de base. A revolução da comunicação que está em pleno curso no Brasil aponta para a quebra deste paradigma. O assunto merece a atenção das nossas direções políticas, de sindicatos, de associações de moradores e demais entidades de classe. Além do fenômeno da multiplicidade de opiniões que os blogueiros imprimem cotidianamente, a tendência das comunidades virtuais em torno da sociedade civil organizada pode qualificar os debates acerca dos assuntos corporativos de cada segmento. Em escala, podemos deduzir que os organismos representativos do nosso tecido social tendem a qualificar suas intervenções públicas favorecendo a participação dos cidadãos em todos os setores da sociedade.

Ao tempo em que a acessibilidade é resolvida no Brasil, cresce a adesão dos internautas em suas redes sociais. O ambiente virtual produz verdadeiras sinapses de inteligência coletiva em nosso tecido social e os resultados podem produzir novas redes neurais, que por conseqüência, novos movimentos sociais. É fato que o advento da internet não substitui a atividade militante dos sindicalistas, políticos e das demais lideranças do movimento social, mas incrementa. A busca da legitimidade da representação, presente no cerne das atividades de mobilização social, passa a ter uma ferramenta poderosa de comunicação com baixíssimos custos e crescente adesão entre os brasileiros. Se as observações e deduções otimistas que apresento neste artigo se confirmarem, conforme apontam as pesquisas do Ibope, e as lideranças souberem utilizar as novas ferramentas de comunicação, teremos em um futuro próximo uma crescente qualificação da opinião pública no Brasil e um fortalecimento das nossas instituições democráticas.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Seria o fim da mania hipodérmica republicana?

Charles Scholl
13metatron@gmail.com

A lógica da comunicação de massa, com a arrogância política do totalitarismo do século XX, criaram as bases da teoria hipodérmica da comunicação. Desde a década de 30 nos Estados Unidos e 40 no Brasil, a tese é construída por cientistas e, no caso dos norte-americanos, muitos contratados pelo Exército. A tese parte do princípio que existe um emissor de um lado e uma massa de receptores absolutamente passivos na outra ponta. Tal concepção está completamente encharcada da matiz ideológica que orienta os representantes do Partido Republicano nos Estados Unidos. O modelo imperou como referência e orientou o comportamento das empresas de rádio e TV por décadas. Talvez seu maior sucesso tenha sido nos períodos de guerra e nas ditaduras militares da América Latina.

Com a crescente abertura democrática, nasce um novo comportamento em relação aos veículos de comunicação que contrapõe as teses em torno da teoria hipodérmica. Talvez o modelo estatal de comunicação Inglês tenha influenciado os primórdios das pesquisas de recepção, por intermédio dos “Cultural Studies”, iniciados na década de 70. Me parece bastante óbvio que as pesquisas de recepção iniciaram um movimento em direção ao público receptor das mensagens e, passou-se a compreender que a recepção das mensagens não é passiva. Começa-se a perceber que cada receptor pode fazer o que bem entende com a mensagem. Na radicalidade, o olhar desconstitui completamente a forma tradicional da comunicação. Hoje, já é do senso comum que as mensagens veiculadas influenciam a opinião pública, mas não determinam, mesmo que a influência em processos publicitários pode ser determinante para uma tomada de decisão. Emerge então um novo sujeito que cada vez se fortalece mais – o receptor.
A realidade social da atualidade e a velocidade em que são processadas as mudanças têm uma relação direta com o fluxo de informação e de conhecimento que circula em nossa civilização. Não tenho a pretensão de resolver a questão se as mudanças são de correntes do aumento do fluxo de informação e conhecimento ou se essa circulação é que promove a aceleração das mudanças sociais. Provavelmente um pouco de tudo. Mas, o fato é que o desenvolvimento das tecnologias de comunicação em tempo real e as tendências à criação de sociedades virtuais com o advento da internet, providenciou a verdadeira revolução do nosso tempo.
As matizes ideológicas mais comprometidas com as práticas interativas tiveram mais sucesso na utilização das modernas ferramentas de comunicação. A campanha eleitoral que deu vitória ao democrata Barack Obama, em 28 de agosto de 2008, torna evidente à nossa civilização que as teses da teoria hipodérmica se tornaram obsoletas diante do pensamento humano da atualidade. As práticas persuasivas em um modelo político democrático passaram a ter mais valor do que as investidas coercitivas da tradição republicana. Neste processo eleitoral, os Republicanos e Democratas utilizaram as mesmas ferramentas, porém com diferentes posturas políticas. O trabalho liderado pelos Republicanos poderia se resumir a ações virais na rede com o propósito de despejar conteúdos prontos e estrategicamente montados para valorizar seu candidato e desvalorizar seu adversário. Os Democratas utilizaram as redes para que seus conteúdos fossem avaliados pelos receptores e, mesmo no decorrer da campanha, o retorno das redes virtuais modificavam o programa de governo, suas prioridades e até mesmo o discurso do candidato. O receptor torna-se um sujeito ativo e pensante da campanha de seu candidato. Torna-se parte da campanha, contribuindo e legitimando as idéias políticas a partir de uma prática democrática do uso das novas tecnologias de comunicação.

A campanha de Obama utilizou diferentes métodos de comunicação buscando a personalização dos grupos sociais. Os mais jovens recebiam textos dirigidos ao tempo que os mais velhos as mensagens eram mais curtas e concisas. Os textos chegavam por intermédio de apoiadores de Obama, quase que diariamente, mantendo as pessoas informadas sem a necessidade dos caríssimos comerciais da TV americana. Os conteúdos encorajavam as pessoas a participar da campanha, aparecer nos eventos próximos das suas residências. Eles elaboraram um sistema competitivo entre os apoiadores no qual o ganhador teria vaga garantida na festa da vitória de Obama. Os Republicanos tentaram desarticular a estratégia dos Democratas montando uma gama de vídeos, porém com os vícios coercitivos inerentes a sua matiz política. Embora o volume de vídeos tenha sido significativo, os resultados não passaram de uma ação viral. Obama reagiu com tecnologia para identificar individualmente seus eleitores. Quando um eleitor navegava por um dos sites da campanha, um “cookie” era colocado em seu navegador. Esse cookie podia identificar o perfil do usuário a partir dos sites que visitava. Então os conteúdos da campanha eram produzidos de acordo com a preferência do eleitor. A possibilidade tecnológica deu mais importância aos conteúdos individualizados para cada eleitor e tornou a propaganda massiva da TV como uma ação complementar.

Tudo indica que tais ações foram as responsáveis em tornar o site de Obama o que recebeu mais hits, fazendo o seu targeting mais efetivo. No início de julho, o site do Obama batia o de JohnMcCain na proporção de quatro acessos para um. Em setembro, apesar das propagandas massivas dos Republicanos, o site ainda registrava o dobro de acessos. A utilização de ferramentas gratuitas, tais como o Facebook, Twitter, MySpace e YouTube, permitiram uma enorme economia, mesmo com os pesados investimentos feitos para a criação dos sites e das redes sociais. A estratégia de arrecadação para a campanha pela internet também modificou o modelo tradicional de financiamento e reforçou os laços de participação de seus eleitores. Além dos computadores, os Democratas também utilizaram os celulares para integrar ainda mais sua rede social pela internet. E a mudança na comunicação não ficou restrita a campanha eleitoral. Como apontam os prognósticos tecnológicos mais lúcidos, essas mudanças vieram para ficar. Recentemente, o conselheiro de tecnologia de Obama afirmou que a utilização de ferramentas como Twitter e SMS permitiu a troca de idéias em uma velocidade nunca vista, e foi possível disseminar conteúdos de baixo para cima, imprimindo uma dinâmica política inovadora para nossa civilização.

Certamente a campanha vitoriosa de Obama é conseqüência de múltiplos fatores, tal qual toda a campanha eleitoral é. Porém, a peculiaridade que podemos atribuir a esse advento histórico está no sucesso do uso de ferramentas de interação com os eleitores que permitiu uma relação direta com o candidato em tempo real. Sem exageros, a tática possibilitou a sensação da onipresença, sem parecer massivo. Algo que só é possível em nosso tempo, e é por esse caminho que seguem as tendências políticas do século XXI. A experiência política vivida nos Estados Unidos terá grande influência nos processos eleitorais de 2010 no Brasil. Os brasileiros internautas se ampliam aos milhares e as mensagens que circulam na rede têm pautado cada vez mais os veículos de comunicação tradicionais. Essa conjuntura já é suficiente para percebermos que neste ano as novas ferramentas de comunicação terão papel decisivo no processo eleitoral.

Fontes e referências bibliográficas:
- Artigo - Cris Danen e a revista Wired. Editado e adaptado por André Kadow
-RABAÇA, Carlos Alberto. Dicionário de Comunicação. São Paulo: Ática, 1998.
-KLAPPER, Joseph. Os efeitos da comunicação coletiva IN panorama da Comunicação Coletiva.
-LAZARSFELD, Paul. Os meios de Comunicação coletiva e a influência pessoal. IN panorama da Comunicação Coletiva.
-MATTELART, Armand e Michele. História das teorias da comunicação. Loyola, 1999.
-GOMES, Pedro Gilberto. Tópicos de Teoria da Comunicação. São Leopoldo: UNISNOS, 2001.
- RUDIGER, Francisco. Introdução à teoria da comunicação. São Paulo: Edicon, 2003.
- LASSWELL, Harold. A estrutura e a função da comunicação na sociedade IN COHN, G. Comunicação e indústria cultural.
- WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Presença, 2002.
- POLISTCHUCK, Ilana e TRINTA, Aluisio R. Teorias da Comunicação. Campus: 2003.
Outras referências:
Textos e entrevistas de Scott Goodstein - Formado em Relações Públicas, trabalhou em campanhas políticas na década de 1990 ao lado dos democratas e na indústria musical. Na campanha de Obama, desde as prévias, coordenou as ações para internet, principalmente em redes sociais, e para celular, enviando mensagens de texto.
Textos e entrevistas de Peter Giangreco - Especialista em mala direta, aprimorou técnicas de pesquisa para tornar as campanhas por correio mais efetivas. Trabalhou ao lado dos democratas em campanhas de Bill Clinton, Al Gore e John Edwards . Com Obama, serviu como consultor de mala direta e ações segmentadas nas prévias em 2008.