sexta-feira, 29 de maio de 2009

Crise econômica e crise ética

O aperto da crise no mercado de trabalho, por consequência da retração econômica, favorece a exploração sobre os trabalhadores em diversos setores. As diferenças étnicas, de gênero e opção sexual emergem da espiral do silêncio e se desdobram em números estatísticos expondo uma crise ética da sociedade fundamentada no preconceito. Embora tenha-se registrado na década de 90 o aumento da participação do gênero feminino no mundo do trabalho, tal crescimento não ocorreu de forma homogênea para o conjunto das mulheres. As desvantagens são provenientes de múltiplos fatores, com ênfase à idade, cor, filhos, escolaridade, renda e posição familiar. Tais mudanças no mundo do trabalho afetaram a relação família/trabalho na articulação de seus membros para a atividade produtiva remunerada, na busca da sobrevivência imediata e de melhores condições de vida. Por consequência, registra-se a maior permanência de jovens na escola e sua diminuição no mercado de trabalho combinando o respectivo crescimento entre as mulheres chefes e cônjuges.

Mulheres no mercado de trabalho

O desempenho positivo do mercado de trabalho registrado em 2008 refletiu no crescimento expressivo da participação das mulheres no mercado de trabalho. A taxa de participação feminina na Região Metropolitana de Porto Alegre passou de 49,0%, registrada em 2007, para 51,4%, em 2008. A redução do desemprego também foi importante na comparação dos dois períodos. Em 2007 a taxa de desemprego feminino na região era de 16,0% e foi reduzida para 13,9%, em 2008. Essa foi a maior redução do desemprego feminino registrado nos últimos 13 anos. Embora tenha-se registrado tal crescimento no mercado de trabalho das mulheres, as diferenças de gênero ainda se mostram gritantes e tendem a se agravar em período de crise de trabalho com o aumento do subemprego e das dificuldades das condições de trabalho.

O custo de vida

Nos três primeiros meses de 2009, os setores da educação, habitação, higiene e beleza registraram aumentos superiores a inflação. Devido ao reajuste das mensalidades ocorrido em janeiro, a educação tornou-se 6,37% mais cara. As despesas pessoais foram afetadas com o crescimento de 3,38% dos produtos de higiene e beleza. As locações, impostos e condomínios elevaram os custos da habitação em 1,44%. A menor inflação deu-se sob o vestuário, com a redução de -1,46%, afetada pelas roupas que registrou uma queda de -1,93% e nos calçados com -0,61%. O setor de transporte finalizou com o resultado de 0,07%, com uma contradição em seus sub-grupos formados pelo transporte individual e coletivo. O individual registrou uma queda de 0,43% ao tempo que o coletivo inflacionou em 1,32%. A alimentação no primeiro trimestre de 2009 registrou um crescimento de 0,74%. Porém, teve um comportamento diferenciado entre os produtos in natura e semi-elaborados (-0,29%), industrializados (0,63%) e a alimentação fora do domicílio, que registrou um aumento de 3,25%.

Cenário para a economia mundial em 2009

A crise financeira iniciada em meados de 2007 tende a se desdobrar em uma crise econômica de grandes proporções. Duas ideias foram sepultadas com o desenrolar da crise. A primeira delas dizia respeito à possibilidade de uma crise contida no setor financeiro, em especial dos países desenvolvidos. A segunda sustentava a hipótese de um deslocamento entre as economias desenvolvidas e em desenvolvimento, com a crise dos países desenvolvidos sendo contida pelo dinamismo dos países em desenvolvimento, com ênfase aos países asiáticos e em especial à expansão da economia chinesa, que daria sustentação à economia mundial. A extensão da crise se revelou com os números do PIB mundial no quarto quadrimestre de 2008, mostrando que a crise da economia mundial estava tão integrada quanto a financeira. A retração da economia mundial deu-se especialmente no setor de imóveis e automóveis. Por consequência, gerando uma incerteza econômica sobre as projeções de demanda às dificuldades de novos financiamentos, afetando também as decisões de investimento. Por conta disso, os bens de capital tendem a seguir a retração projetando seus efeitos para o futuro. Os dados mais recentes apontam para uma situação mais complexa e difícil na economia mundial, com a duplicação das taxas de desemprego nos Estados Unidos, impedindo qualquer estimativa mais otimista para o primeiro semestre de 2009. Especialistas apontam que as soluções não são possíveis com meros ajustes fiscais e monetários aplicados isoladamente por cada nação. Em decorrência da integração da economia global, a soluçãos para essa crise passa por uma ação conjunta entre os países. Os norte-americanos, por ainda fazerem parte da mais forte economia do Planeta, poderiam liderar uma virada de mesa e relançar as bases para uma retomada futura da economia mundial.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Reforma política, opinião pública e a crise da representação

Para aqueles que conhecem as rotinas do serviço público já devem ter se deparado com algumas tensões resultantes das diferenças da natureza pública e privada. Talvez o núcleo dessa tensão esteja na máxima em que todo o cidadão é livre para fazer o que bem entende, desde que não contrarie a lei. Já o Estado não pode fazer nada que não esteja previsto em lei. Bom, com isso, é comum encontrar manifestações de defesa de procedimentos em que o único argumento é a afirmação de que “sempre foi assim”. Tal situação me lembra muito o debate em torno da reforma política. Pode parecer uma comparação completamente desqualificada, mas a faço sem medo, pois acredito que as dificuldades em torno da reforma política moram na desinformação geral sobre o assunto.
Em um primeiro momento se faz necessário afirmar que o Congresso Nacional é a instância que mais acumulou estudos sobre as possibilidades de reforma política no Brasil. Portanto, não se trata, necessariamente, de um assunto de domínio popular. O estranhamento que a opinião pública tem com o tema revela a crise da representatividade e a distância entre governo e sociedade. É também a crise da representação política em que, via de regra, as campanhas são focadas nas personalidades em completo desprezo por qualquer programa de governo ou partido. Diante desse quadro prevalece o lógica do poder econômico que sustenta uma relação clientelista com o eleitorado brasileiro. O ciclo é perfeitamente sustentado na cultura política do país, que vive seu momento pós-ditadura. Existe um grupo importante de parlamentares que acreditam que o Brasil já vive outro momento político e estão dispostos a apreciar algumas propostas vinculadas a reforma política.
Na minha opinião, quatro propostas são importantes e podem mudar completamente as relações político-eleitorais no Brasil. As propostas alteram o modo de financiamento de campanha, definem novas regras de reforço a fidelidade partidária, mudam o modo de escolha dos candidatos propondo a composição de listas partidárias e redefinem regras sobre as coligações partidárias. O assunto parece absolutamente alienígena às conversas de bar, rodas de chimarrão, bate-papo na internet, conversas entre professores, programas de TV, artigos em jornais ou revistas, ou seja, é algo que tende a ser tratado pela elite política brasileira. Porém, suas conseqüências se darão sobre toda a população.
A idéia de enfrentamento da cries da representação, cries ética, corrupção passam necessariamente por uma revisão sobre a forma que realizamos os processos eleitorais no Brasil. Relembrando a máxima de que “sempre foi assim”, vale lembrar que para isso não serve. Também é oportuno lembrar os motivos que deram origem ao sistema político vigente em nosso país. Ainda é possível perceber as marcas genéticas do governo Castelo Branco (1964 – 1967), em que o General Golbery de Couto e Silva articulou um plano para impedir o crescimento vertiginoso do PTB, sob o argumento de que se deveria garantir as bases de uma transição “lenta, gradual e segura”. Depois a forma como o sistema parlamentarista foi debatido no Congresso Nacional, que introduziu suas bases na reforma constitucional de 1988, acabou consagrando o regime presidencialista. Com o mandato de Fernando Henrique Cardoso instituímos um regime ainda mais autoritário que vai das medidas provisórias até a possibilidade da reeleição. Talvez hoje as pessoas já encarem a reeleição como algo normal. Mas, certamente, é mais fácil compreender que essas mudanças foram tomadas para assegurar determinados grupos no poder do que aproximar o governo da sociedade. Talvez seja o momento de debater uma reforma política que moralize os processos eleitorais, reforce as instituições partidárias e aproxime a sociedade dos governos em mandatos eleitos por seus programas e propostas. Utópico? Acho que não, a resposta depende do tempo em que se vive, pois sabemos que nem sempre foi assim e assim não será para sempre. Então como será?