terça-feira, 15 de maio de 2012

Como está a Dona Inês?

Como está a Dona Inês? é a pergunta que todos me fazem. Tenho dado respostas protocolares e resumidas, como se estivesse teclando no twitter. Aqui quero falar um pouquinho mais. Certo dia minha mãe me olhou com um ar de preocupação e disse que precisava fazer alguns exames, pois desconfiava que sua saúde não estava plena, como seu humor cotidiano demonstrava. Logo senti um peso muito forte naquelas palavras, pois sabia que não estava falando com uma neófita e, tão pouco, uma menina mimada. Inês, em sua vida, emergiu das roças e do convívio saudável entre colonos alemães de Santa Maria do Herval para a turbulenta agenda psicótica dos comunicadores urbanoides das regiões metropolitanas. Não tinha como escapar das investigações para saber com alguma profundidade se os desconfortos que ela apresentava seriam sintomas de algo grave. Após vencer as etapas burocráticas do sistema de saúde ela fez alguns exames. Essa etapa Inês fez questão de encarar sozinha, como se tivesse que resolver isso primeiro com ela mesma para depois dividir com alguém. Os exames chegaram e tínhamos um caso de neoplasia para ser tratado, ou seja, ficamos sabendo que a Dona Inês havia desenvolvido um câncer.



Após passar um tempo no hospital iniciou um tratamento ambulatorial de radioterapia e quimioterapia. Seriam 24 aplicações e eu me dispus a acompanha-la, caso tivesse alguma resposta biológica que a impedisse de dirigir. Bobagem, eu queria mesmo é estar com ela nesses momentos. Como se não bastassem as notícias, o fantasma do desconhecido também nos assombrava o tempo inteiro. Neste ponto, a situação já era um problema nosso, compartilhado, dividido, embora as coisas estivessem acontecendo somente no corpo dela eu sabia que as pressões psicológicas seriam ofertadas democraticamente para quem a estivesse acompanhando. Diante do quadro, imaginava a convivência com pessoas doentes com grandes chances de encontrar pacientes terminais. Inevitável refletir sobre tudo na vida diante desta experiência e não tinha boas expectativas sobre o que teria de enfrentar ao lado de minha mãe. De imediato tinha que administrar as mudanças de rotina da minha vida pessoal, que ocasionou a mudança de rotina de muitas pessoas. A Dona Inês também tinha que organizar sua vida para a mudança de rotina, que afetou muitas pessoas, em especial meu irmão, Sérgio Heráclito, que mora com ela. O dia começaria mais cedo, terminaria mais tarde e ficaria mais curto. Teria que compreender mais sobre radioterapia, física, biologia molecular, química, morfologia humana para ter alguma chance de compreender o que está ocorrendo. Estava preparado para enfrentar as entediantes filas e a se adequar às agendas dos médicos especialistas que acompanham o tratamento e atendem em vários turnos distintos.

Todos perguntam como está o tratamento, porém até então não tínhamos muito a dizer além do pânico. Isso diminuiu um pouco e é sobre isso que venho falar. Penso que todas as pessoas estão sujeitas a passar por situações semelhantes. Nosso lado estóico nos diz que começamos a morrer quando nascemos.

Tudo que foi dito acima parece muito óbvio, porém se tornaram questões diminutas diante da força transformadora e criadora de possibilidades presente nos indivíduos que dialogam e interagem. Isso não estava previsto e só pude perceber vivendo as experiências. Desta mistura brotaram milagres que nasceram da relação das pessoas. Estamos concluindo a primeira etapa da radioterapia e quimioterapia. Tudo indica que no dia 23 de maio finalizaremos o tratamento intensivo e passaremos para uma sequência de revisões que imprimem outra rotina, menos intensa, baseada em marcação, realização, retirada e avaliação de exames . Os primeiros passos desta caminhada serviram para nos lembrar que o medo e o desconhecimento caminham juntos e são parceiros fortes que precisam um do outro para sobreviver. O medo é parte da nossa natureza e está intimamente ligado a preservação da nossa vida, porém sua intensidade pode ser um problema. Na medida em que tomamos ciência e compreendemos os processos do enfrentamento à doença, o medo diminui.

Quando falo em milagre, me refiro ao dia 15 de maio, terça-feira. Naquele dia despertei eufórico, passei o café e logo minha mãe encostou o carro no estacionamento. Desci e a encontrei com um sorriso indescritível. Estávamos muito felizes porque íamos para a radioterapia. Era o último dia de Marli, que enfrentara dificuldades maiores do que a nossa por morar em Taquara. Minha mãe levou uma garrafa de café com leite. Ela reclamou que estávamos dez minutos fora do prazo combinado na noite anterior. Eu disse que tínhamos tempo, mas ela queria chegar mais cedo para encontrar os amigos. Quer milagre maior do que acordar mais cedo para ficar mais tempo na fila? Irracional, mas era isso que estava acontecendo.

Marli ganhou apoio do Supermercado Volte Sempre, de Taquara, que preparou bolo e salgados. Seu esposo, José Luiz, demonstra um empenho comovente no tratamento de Marli. Teresinha, de Dois Irmãos, acompanha seu marido, José Lauro, em jornadas exaustivas que lhe ocupam o dia inteiro. Ainda assim, aquela mulher de sorriso largo e generoso encontrou energia para preparar uma deliciosa cuca para ser compartilhada no café da manhã da radioterapia. Esses gestos nos comovem, nos invadem, nos arranca daquele mundinho de cinco metros do entorno para um olhar mais amplo sobre a própria existência. Entre eles Zenaide, de Três Coroas, uma companheira petista que olho e lembro do rosto, mas de onde? Outro dia ela me olhou fixamente e disse que me conhecia, mas de onde? Se não nos conhecemos então tá valendo aquela tese de que o petismo pode deixar as pessoas meio parecidas, mas duvido, pois ainda tenho esperança de lembrar de onde a conheço. Seu Otávio, do Alto de Caraá veio com sua esposa Celoir que preparou rosquetes deliciosas. Nesse dia descobri que Catarina mora em Parobé, pois conversamos enquanto ela comia o bolo. As brincadeiras da Dona Inês com o Alfredo naquele dia passaram da conta, deixando a Teresinha sem fôlego de tanto rir. Que arrancou as medicinais gargalhadas da Estela, que acompanha seu pai Anibal de Sapiranga. Por um momento, naquela manhã, nos olhamos e recitamos juntos “lá dentro é a rádio, aqui na recepção é a terapia”. Comemoramos a vitória de Marli, de seu esposo José Luiz, de toda sua família e de todos nós, que lembramos naquele momento a alegria de viver. Jamais imaginaria viver isso na sala de espera da radioterapia.

Sobre o tratamento, podemos dizer que a Dona Inês teve uma boa resposta biológica até o momento. Ela continua no mesmo pique de sempre, eventualmente parecendo que tem um parafuso a menos, mas se você olha mais de perto percebe que tem alguns a mais. Comunicativa, extrovertida, piadista, alegre e contagiante ela no dá uma lição de perseverança e de vida. Quero fazer um agradecimento especial para todas as pessoas que me cobraram notícias e me motivaram a escrever esses breves relatos.







segunda-feira, 23 de abril de 2012

Acordes e melodias cotidianas com a Ingrid

A grande notícia do momento é a mais nova violeira da família. A Ingrid ganhou de presente do dindo Klaus um violão lindíssimo. A pequena já ensaia as primeiras notas e após duas aulas de violão popular já postula dos principais acordes e manifesta clara intenção em compor. Claro que junto a oficina de música, extremamente prática, já que a Ingrid estudou teoria musical, fiz também uma oficina de criatividade musical, textual e iniciamos a construção da melodia da música que nasce no decorrer das aulas. O tema da primeira composição é “O que você tem a dizer?”.

Além da maratona musical neste final de semana filosofamos sobre os super-humanos, queimamos todas as calorias possíveis com a bicicleta e em sintonia corpo e mente a pequena teve muitas oportunidades de treinar seu domínio e equilíbrio cobre seu corpo e mente. Acho que foi o primeiro findi sem tombos. Ainda sobrou tempo pro tema, para algumas tarefas domésticas, para uma boa noite de sono e para um tempinho junto a tv e ao computador onde nos desafiamos em joguinhos de flash. Muito masssa!!!!!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Musica para Lara

O Klaus é um companheiro de jornada existencial. Não me vejo como um estranho quando busco compreender as coisas. É evidente que para isso a pessoa tem que estar preparada para a possibilidade de estar equivocada sobre aquilo que acredita estar correto. Simples assim, porém não é fácil colocar-se em questão. Isso não tem relação com a força exercida sobre a execução do raciocínio lógico do exercício da reflexão. Mas com as resistências sobre  mudanças que afetam o alicerce de sustentação do sistema vigente. Fazer tais perguntas é questionar verdades sobre assuntos que são vistos como verdades fundamentais, portanto edificam a base de toda a concepção de vida que se tem. Eu creio que revisar os conceitos nunca é demais e não me furto de perguntar diretamente às pessoas sobre seus pontos de vista em temas que considero importantes. Tal postura me rendeu ensinamentos que valem existências inteiras, se é que me entendem. A foto é autoria do Klaus e registra a Lara curtindo um som. Ela curtiu pra caramba. Foi muito massa ouvir ela” tagarolar”....”laralaralaral”. ..... ´- simplesmente massa!!!!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Como está a Dona Inês

Tive a oportunidade de conhecer Otília. Uma mulher de 95 anos que dividia o quarto com a Dona Inês, no Hospital da Puc. A quase centenária mulher não se manifestava para nada. Limitava-se a piscar os olhos e estava no hospital por conta de um tombo que havia sofrido. Não tinha mais ninguém de sua família e vivia em um asilo. Para quem conhece a Dona Inês sabe de sua inquietude e passou a provocar conversas com Otília. Diante da insistência as tentativas passaram a constituir uma comunicação por solilóquios, parecendo que as mensagens enfrentavam grande resistência em permear a mente de Otília. Logo virou diálogo, porém a surpresa é que as conversas de davam em alemão, geralmente em chingamentos. A Dona Inês não fica indiferente diante de outra pessoa e passou a alimentar Otília e ela logo melhorou. Ontem quando cheguei no Hospital para levar roupas limpas percebi a ausência de Otília e com certo receio perguntei seu destino. Dona Inês abriu um sorriso e disse que ela havia dado alta. O mesmo sorriso não estava no rosto dos outros companheiros de seu quarto. Um acompanhante vindo de Três Maio disse que Otília só tinha melhorado por conta da Dona Inês e que não acredita que ela viveria muito fora dali. Constatamos a todo momento que onde a Maria Ines Scholl Heinz passa o ambiente muda, as pessoas ficam mais sensíveis e humanas. Ela segue com as aplicações de radioterapia e quimioterapia e todos torcemos por uma boa resposta biológica. Parabéns ao Sergio Heraclito Scholl Heinz, ao jornalista João Machado pelo excelente trabalho na edição do Eco Do Sinos. Obrigado pela colaboração de todos e pela compreensão diante das imperfeições cotidianas que decorrem desta mudança de rotina.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A tensão da mudança

Novas ideias surgem por meio da discussão, investigação, análise e crítica de ideias alheias. Em tempos democráticos as mudanças se dão pela via das novas ideias, que se legitimam nos processos políticos. Em outros tempos as mudanças se davam pela eliminação das pessoas. Ainda temos hoje aqueles que não gostam de críticas.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Dia extra do ano Bisexto

Este é um ano bisexto, e como tal um dia é adicionado para fazer com que o calendário permaneça em sintonia com o Sol. Este dia é hoje. A razão que periodicamente faz com que adicionemos um dia é que a Terra não demora exactamente 365 dias a dar uma volta ao Sol, mas sim 365.25 dias. Por isso, em cada quatro anos, o calendário contém mais um dia para contar com o quarto de dia extra do período orbital da Terra.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ingrid com 10 anos, quando todos viramos criança





Minha filha comemorou 10 anos no dia 15 de janeiro. Comemorei com ela o último dia de sua vida com 9 anos de idade. No sábado, dia 14, acordamos bem cedinho para preparar uma festinha com balões, bolo, salgadinho e velinha de aniversário. A motivação toda foi da minha esposa Natália, que fez a maior correria comigo para marcar esse momento importante para a Ingrid. Foi uma festa surpresa para todo mundo, nem eu sabia que iria fazer, mas chegou o momento e então decidimos agir. Na festa só tinha criança, pois nós todos fomos atingidos pela síndrome de Peter Pan, comemos o bolo de chocolate com cereja, sabor preferido da Ingrid, os salgadinhos, que ela gostou muito e depois descansamos para um dia de atividades que estava por vir.
Fomos para Porto Alegre, no Iguatemi, para curtir um cineminha. A escolha da programação foi da Ingrid, que nos levou para assistir Alvin e os Esquilos 3. Ótimo filme, nos divertimos muito, mas vale registrar a espera na antessala do cinema, quando dei um milk shake para a pequena. Me atrapalhei no menu da chique lanchonete e comprei um milk que deu quase R$ 20,00. Todos nós ficamos chocados com o preço, mas valeu para rirem da minha cara e tudo virou festa.

Depois do filme chegou o momento do presente. Disse que guardaria segredo sobre o que seria, mas que caso a Ingrid acertasse o que ganharia eu daria mais detalhes sobre o que se tratava. Atravessamos a rua e fomos para a Livraria Cultura, mas no caminho a pequena já matou a charada dizendo que eu planejava dar um livro para ela. Esperta a mocinha, tive que iniciar então a explanação sobre o que seria essa história de comprar um livro. Lhe disse que eu gostaria que ela escolhesse o assunto que mais lhe agradaria. Que seu presente tinha por objetivo principal melhorar sua leitura, pois ela já ingressa na 5ª série e precisa praticar suas habilidades de leitura. O melhor caminho para isso é ler com prazer. Então nos esparramamos pelo chão da livraria e começamos a escolha. Depois de ler várias páginas de livros de seu interesse, ela escolheu um e já levou empacotadinho.

Nosso trato é para ela ler, no mínimo, quatro páginas por dia para melhorar suas habilidades. Isso seria muito bom para os desafios que estão colocados na sua agenda em 2012. Claro que a menina vaidosa pensou em ganhar um sapatinho de salto, que lhe dei no decorrer da semana, pois é natural que não pensemos muito em livros com 10 anos de idade. Bom, então nos cabe motivar a pensar.

Na minha infância eu era castigado a ler. Que absurdo isso. Quando eu fazia alguma arte meu castigo, ministrado pelos professores, era ler algum livro ou texto. Na minha opinião essa é a pior pedagogia possível. Ora, associar a leitura a um castigo é a pior das lições que alguém pode dar. Por isso eu optei em vincular o exercício de ler com atividades alegres, divertidas em que tudo é uma grande brincadeira. Quem sabe minha filha busque a leitura como uma forma de lazer, tal como fizemos em minha casa. Nesse sentido a Livraria Cultural é um grande parque de diversões. Experimentem levar seus amigos, seus filhos para um passeios na biblioteca. Certamente será muito divertido, economicamente viável e será uma atividade saudável para todos.

Para encerrar do dia fomos jantar na Cantina Capri, em São Leopoldo, junto com o Rafael que também estava de aniversário. Aquela agenda que iniciamos bem cedinho terminou quase meia-noite. Algumas pessoas se aborreceram com a nossa festa, mas vale um desconto, pois não é todo o dia que fizemos aniversário e essa felicidade não tem preço. Te amo filha e só tenho a te agradecer toda a felicidade proporcionada nessa agenda maluca. Um feliz aniversário.