segunda-feira, 28 de março de 2016

A natureza econômica do golpe em 1964, qualquer semelhança....

Charles Scholl
Diretor de Comunicação
Prefeitura de Alvorada

No dia 21 de março de 2014 participei de uma atividade promovida pela Ordem dos Advogados do Brasil em parceria com a Comissão Estadual da Verdade, em Porto Alegre, para resgatar elementos históricos ocorridos na ditadura militar. Na ocasião foi apresentado o documentário "O Dia que durou 21 anos", e fizemos um debate com o jornalista Flávio Tavares.  Resgato esse fato nesse momento histórico para poder compartilhar informações importantes sobre o que está ocorrendo no Brasil.
Naquela sexta-feira, 21 de março, de 2014, na sede da OAB de Porto Alegre participei de uma atividade que evidenciava desde então os acontecimentos em curso no Brasil de hoje e a necessidade de preservarmos nossos interesses nacionais, tal como o petróleo que parece ter entrado na ordem do dia no mercado internacional. Por anos não falei em público sobre as experiências que vivi na década de 90, sendo a primeira metade como sargento do Exército e a segunda como ativista de direitos humanos. A importância histórica que teve o Comandante Maurer, ao defender um reposicionamento das Forças Armadas que pudesse encontrar uma sintonia com a sociedade democrática. As resistências a essa ideia que sempre compartilhei marcaram minha vida militar na caserna.  
A segunda metade daquela década me tornei comunicador, diretor de empresa de comunicação, político e militante dos direitos humanos. Nesse período, a professora Clotilde Cechin e o jornalista, ativista e amigo Marcos Rolim foram fundamentais para minha formação. Estaria ao lado deles sempre, mas os caminhos da vida nos impuseram percursos diferentes que me possibilitaram andar com as próprias pernas.
Naquela  sexta-feira (21), após uma longa e exaustiva jornada de trabalho, saí de Alvorada, onde trabalho, para acompanhar o final da atividade promovida pela OAB em parceria com a Comissão Estadual da Verdade. Lá encontrei o Jornalista Flávio Tavares que apresentou o documentário “O dia que durou 21 anos”. Estava estudando sobre o assunto, pois preparava um produto editorial sobre o tema.
O documentário de Camilo Tavares, filho de Flávio, trouxe à tona as malditas memórias. Nos depoimentos apresentados no filme surgiam lacunas de compreensão. Vazios que mereciam ser preenchidos. Era visível que parte do processo necessitava de um complemento para que a nossa história pudesse ser compreendida. Uma das peças desse imenso quebra cabeças estava na ponta da minha língua. Então decidi me pronunciar e o plenário pegou fogo, com uma enxurrada de posições acerca do que havia sido exposto. Ou seja, acabei revelando que a estrutura que havia dado o golpe no Brasil em 64 estava viva e presente, porém adormecida nas entrelinhas do treinamento militar que recebi. Nas cartilhas dos currículos das melhores escolas privadas e de algumas públicas. Que as famílias tradicionais que deram os primeiros golpes de estado no Brasil estavam vivas, ativas e cheias de privilégios, principalmente no Rio de Janeiro, como bem aponta Luis Eduardo Soares em sua obra "Meu Casaco de General - 500 dias no front da segurança pública do Rio de Janeiro"(Cia das Letras). 
Flávio é a pessoa mais generosa que encontrei em muito tempo. Sua lucidez inspiradora me deu forças e até me senti orgulhoso de estar exausto por motivos que todos no entorno me julgariam como um idiota. E fazem isso frequentemente. Por um momento, Flávio espantou a solidão e o isolamento, sensação que tenho tido com frequência nas atividades militantes. Ele soprou uma luz ao demonstrar que a mediocridade não tomou conta de todos. Ainda existe inteligência e quero poder compartilhar o quanto possível. Agradeci muito aos organizadores em proporcionar aquele momento, em plena turbulência social vivida em 2014, que encontramos a fatura de não ter promovido a "verdade ao povo breasileiro" e permitindo que reascendam a ideia do retorno de um regime semelhante no Brasil. Praticamente todo o conteúdo do documentário foi colhido nos Estados Unidos. No Brasil já não havia mais nada. O filme está super atual e é muito apropriado para o momento que vivemos.
Segue abaixo link para assistir ao documentário:


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O semáforo que nos dá um sinal

Charles Scholl
Diretor Geral de Comunicação Social 
Prefeitura de Alvorada

No sábado, dia 13, participei de uma atividade que reuniu dois prefeitos, o de Alvorada e o de Viamão, para marcar a superação de um impasse que se arrastava por mais de 20 anos. O momento que marcava o início do funcionamento do semáforo na Presidente Getúlio Vargas, nas mediações da parada 63, foi importante para os moradores, empresários e líderes comunitários  de Viamão e Alvorada. Foi um momento muito legal, de felicidade e de comoção das famílias que perderam entes queridos naquele perigoso entroncamento.
Ao divulgar em redes sociais a atividade realizada naquele sábado pela manhã, eis que emergem manifestações populares de pessoas de diversas partes da cidade criticando as administrações municipais de Viamão e de Alvorada pelo ato público, por ser desnecessário. Então vieram vários argumentos do tipo "tem coisa mais importante para fazer no expediente". Detalhe é que no sábado não temos expediente.  "Não precisava fazer isso, porque não tapam os buracos da cidade". Bom uma coisa não exclui a outra, procurei explicar que a cidade está fazendo um esforço enorme para superar as dificuldades financeiras que se abatem por todas as cidades gaúchas, especialmente em Alvorada que é um município em que as restrições econômicas são as mais severas.
Foram mais de 150 colaborações de indignação pelo ato de inauguração do semáforo.  É evidente que temos uma mensagem clara, de que os formadores de opinião e manifestantes virtuais se perderam e caíram em sua própria armadilha. Correta a indignação pela restrição de serviços e é digno e virtuoso que cidadãos se manifestem pela melhora na qualidade do serviço público. No caso, temos um ato que marca a melhora na qualidade do serviço público, na segurança das nossas vias, na superação dos impasses que impediam uma solução daquele problema reivindicado pela comunidade por mais de 20 anos. As reivindicações, nesse caso, demonstram uma irracionalidade geral.
Por sorte temos gestores centrados e capazes de discernir os movimentos políticos geradores de crises, das manifestações de indignação descontextualizadas da realidade e das manifestações populares coerentes. Em momentos de crise as escolhas foram as mais acertadas. Primeiro se incidiu sobre a redução do salário do prefeito e secretários, depois sobre a redução dos cargos em comissão e todos os movimentos acompanhados de um aperto geral nos custos da Prefeitura, com significativas otimizações de espaços e reduções de aluguel. Porém, se os repasses constitucionais da União e do Governo do Estado não forem feitos ao município, Alvorada é uma das cidades gaúchas que mais sofre com isso. Existe uma grande dependência de recursos externos para a manutenção da cidade.
Para se ter uma ideia mais clara sobre a situação econômica e autonomia do município, tomando por números absolutos, a Prefeitura de Alvorada arrecadou em 2015 com o IPTU, mais a taxa do lixo o valor de R$ 8.446.924,00, num total do orçamento que fechou em R$ 281.777.805,06, segundo o Portal da Transparência . O valor pago pelo IPTU na cidade não paga um terço da conta do recolhimento do lixo. Todo o restante é pago com recursos externos. Por isso, valorizamos cada centavo economizado e a Administração não mediu esforços para viabilizar grandes empreendimentos, a exemplo do Shopping, que certamente afetará essa proporção positivamente para a comunidade alvoradense.  

A energia aplicada nas manifestações que trouxeram melhora para a comunidade demonstram a necessidade de uma reflexão por parte dos internautas. Nesse caso valem as perguntas: será que é muito difícil suportar a felicidade do outro? se de fato temos tantos problemas, estou resolvendo eles ao atacar o que está sendo feito da forma correta? se estão afirmando que existe uma demanda de mais de 20 anos o incompetente é quem resolveu o problema? Fiquem com as respostas, não me surpreendo com mais nada. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

As pessoas do trem que nada vêem

As pessoas no trem, em sua grande maioria, eventualmente espiam para fora de si no decorrer da viagem.  Quando ocorre revelam no olhar um profundo desespero.  Uma espécie de agonia da existência.  A maior parte do tempo as pessoas ficam fixadas no aparelho celular. Os fones nos ouvidos garantem o confinamento. Ou o teletransporte temporal por meio do bate-papo,  joguinho, redes sociais para escrever ao vento as emoções.
Nem sempre as emoções correspondem com a realidade.  Mas logo atribuímos uma razão qualquer àquilo que não cabe em nossa compreensão. No trem, em plena solidão em meio a multidão, um suspiro para oxigenar a fuga de seu desespero existencial. Postagens de afeto lançam sentimentos bons ao vento em busca de alguma conexão.  Todos têm sono.
Dá pra citar um exemplo, que pela memória congelei no tempo. Observei uma troca de lugares no trem.  Ao chegar em sua estação,  a moça de meia idade vagou um acento. O jovem que dormia de pé ao lado do banco que vagou lançou-se e garantiu seu sono, agora sentado.  Em frente a ele uma senhora ficou visivelmente indignada.  Porém, ao observar seus olhos percebi um desconforto diferente.  Olhei para o jovem e mostrei a ele a situação.  Imediatamente ele levantou para dar espaço à senhora enferma que cambaleava no corredor do trem.

É evidente que aquele jovem se portou de forma indelicada ao fazer uso de sua juventude e rapidez para conquistar a vaga no acento. Não se trata de maldade. Isso ocorreu pela forma como ele viaja no trem.  Atomizado, desconectado da realidade e imerso em um mundo virtual em que sublima suas angústias e torna confortável sua estadia neste mundo psicológico. Isso impede que ele veja as outras pessoas, embora esteja em meio a uma multidão. O que assusta é que as pessoas do trem podem permanecer assim após o desembarque. Na vida toda, eventualmente espiando para fora de si a realidade. 
Charles Scholl
14 de setembro de 2015.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Carlos Pestana promove encontro de formação política

No sábado, dia 30 de novembro, participei de um encontro de formação política organizado pelo Chefe da Casa Civil, Carlos Pestana. Na pauta foi posta a agenda eleitoral de 2014. O encontro contou com a participação dos principais dirigentes políticos do PT do Rio Grande do Sul, que debateram diretamente com representações regionais de todos os recantos gaúchos. Dirigentes políticos colocaram na agenda de Pestana o desafio de dar continuidade ao projeto em curso no Rio Grande do Sul em uma posição dentro do parlamento gaúcho. A proposta foi apresentada e sustentada por diversas lideranças gaúchas que avaliam que o trabalho de Carlos Pestana, após coordenar a vitória de Tarso Genro no Governo do Estado, deve fazer frente ao projeto político na Assembleia Legislativa.  

 Ary Vanazzi, presidente eleito foi aplaudido de pé pelos participantes do encontro. 
 Todos temos que ter a oportunidade de poder debater política.... hoje um amigo estava com o pé engessado, mas isso não foi obstáculo e ele pôde acompanhar um debate com as grandes ideias que norteiam e permeiam nosso cotidiano.... muitas questões postas na mesa..... saímos de lá com mais dúvidas do que quando entramos..... ampliamos as pautas de debates e percebemos que as dúvidas são os indícios de que estamos saindo do lugar..... assim como percebemos o movimento do trem ao olhar os postes estáticos que parecem passar por nós..... Glenio Alex Cruz e eu participamos de uma atividade que rendeu uma boa formação polícia.....
 A fala do Ary Vanazzi foi qualificada ao enfocar a disputa política posta no Rio Grande do Sul. Mas a graça veio da forma como o presidente eleito do PT colocou suas ideias. O gringo fez o plenário rolar de rir com seus exemplos criativos ao tempo que todos saíram muito bem informados sobre a disputa colocada na nossa agenda em 2014. 
 Raul Pont participou da atividade e contribuiu com sua experiência política. 




quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dia Mundial do meio ambiente

Hoje é o dia mundial do meio ambiente......Em Alvorada estamos focados em torno do tema da gestão dos resíduos sólidos com responsabilidade ambiental e sustentabilidade. São os primeiros passos rumo a uma economia verde.....acompanhe nossa programação....
http://bit.ly/18NCsBR



domingo, 10 de fevereiro de 2013

Sobre as escolhas políticas e o uso da técnica para encobrir, com uma cortina de fumaça nossas desumanidades.....


Este texto escrito por Marcos Rolim eu quero copiar para o meu blog pessoal. Depois que minha se curou do câncer essa é a primeira postagem pessoal que faço. A profundidade desta mensagem justifica tudo, para além das superficialidades partidárias me uno ao apelo por uma reflexão dobre nossa civilização.




A ESCOLHA     
Marcos Rolim

Antes da última guerra mundial, Paul Valèry disse que a desumanidade teria um grande futuro. É possível que a frase siga sendo verdadeira. A tragédia de Santa Maria nos induz a pensar sobre o futuro; cabe a nós escolher se em termos de humanidade ou desumanidade. Há nas tragédias uma substância que nunca será dita. É impossível representar o horror porque a dor é, ao mesmo tempo, o mais radical e o mais inacessível dos sentimentos. Nos chocamos e nos enlutamos de várias formas, enquanto a indignação e o espanto cresciam. Mas é preciso lembrar – em respeito aos familiares das vítimas - que a dor que sentimos diante da dor do outro é outra dor.  Na medida em que nos identificamos com os que sofrem, experimentamos o absurdo de forma irreal, como em um pesadelo, bastando nos imaginar dentro do horror. O desespero, entretanto, é mais que o absurdo. Ele é o torpor diante do sem-sentido, a impossibilidade da palavra e a pergunta que nunca terá resposta: porque com meu filho? O que ocorreu em Santa Maria nos diz respeito pela proximidade, antes de tudo, cuja tradução é a certeza de que nossos filhos poderiam estar lá.  Talvez por isso, se a tragédia ocorresse em um asilo ou em creche da periferia, o impacto na opinião pública tenderia a ser menor. Se fosse na Fase ou em uma prisão, muito menor; o que se pode compreender, mas não aceitar. Em 2000, estive em Uruguaiana, na creche “Casinha da Emília”, onde um incêndio matou 12 crianças. Nas sete creches públicas da cidade só encontrei extintor em uma delas. No Presídio Regional de Santa Maria e na antiga FEBEM na capital, estive nas celas onde internos morreram intoxicados pela fumaça de colchões queimados. Nenhuma das recomendações feitas à época surtiram efeito.

Embora o mercado ofereça a opção de colchões não inflamáveis, adquirimos os outros, porque são mais baratos e ainda empregamos naquelas instituições trancas que, em caso de incêndio, dificilmente poderão ser abertas. A diminuição destes riscos é uma exigência técnica ou política? A resposta dos burocratas sempre irá se ancorar em “razões técnicas”, exatamente para que a razão política – em geral a inação – não seja identificada. Prevenir incêndios é uma tarefa política por excelência – no sentido de que exige a vontade de fazer e de tornar a tarefa prioritária - que se realiza na seleção de alternativas técnicas adequadas.


Em outro contexto, Adorno afirmou que “qualquer debate sobre metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita”. Tomo de empréstimo a passagem para sustentar que todo debate sobre o horror que não esteja submetido à meta de evitar sua repetição carece de significado. Depois do horror em Santa Maria, a política não poderá ser a mesma; pelo menos não no RS. Será preciso que sociedade e Estado construam compromissos verdadeiros de prevenção e que o tema do “cuidado com as pessoas” deixe de ser um slogan. As lições mais radicais do horror implicam em mudanças civilizatórias ou serão nada. A escolha, mais uma vez, será política, não técnica.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dona Inês sobrevive à cirurgia e apresenta diagnóstico de cura


Charles Scholl

Na sexta-feira, dia 14 de setembro, pela manhã, nos reunimos com a equipe médica para a primeira revisão depois de ter ido para casa. Ela passara dias internada no sexto andar do Hospital São Lucas, da Puc, em Porto Alegre, para se recuperar daquela enorme cirurgia em seu abdômen. Após longa caminhada estávamos tensos em relação à continuidade do tratamento, quando o Dr. Ricardo Breigeiron esboçou uma expressão diferente. Ele se tornou uma pessoa muito especial para nós. Todas nossas expectativas partiam de suas posições, de suas palavras, de seu entendimento e de sua estratégia para vencer o câncer que diagnosticamos nela este ano. Todos os outros médicos que a viam se reportavam a ele. De imediato senti um pavor por não ter entendido aquela expressão. Queria saber da continuidade do tratamento e dava para ver nos olhos do Dr. Ricardo que o tratamento tinha chegado ao fim. Todas as possibilidades passaram em minha cabeça, em fração de segundos, menos aquela que seria verdadeira. Realmente o tratamento terminou, disse ele. Completou informando o resultado da biopsia que apontava a ausência do câncer. Naquele momento podíamos dizer que “a Dona Inês está curada.”

Sem saber como reagir, por não acreditar naquela notícia inesperada, nos olhamos e vi a Dona Inês inerte. Eu a trato com toda a formalidade e respeito pela sua história de vida, que nos orgulha tanto. Em seguida vi naquela mulher minha mãe, seus olhos marejados com uma expressão mista de espanto e encanto. Seus lábios começaram a tremer lentamente e sua boca esboçava uma expressão que lembrava um sorriso, mas que acontecia naquele momento de lágrimas. Um choro alegre que não resisti e compartilhei. Sem qualquer constrangimento por estar reagindo daquela maneira diante de pessoas tão importantes para nós. Quando olhei para frente percebi que a vitória da vida emociona até mesmo os profissionais mais experientes. Devemos a vida para eles. É isso que passou na minha cabeça naquele momento. Afinal de contas, minha mãe foi a única sobrevivente da nossa família, que tem esse problema genético que se manifesta em determinado momento da vida.

Esse momento mágico que jamais será esquecido por nós, marca um novo aniversário para Dona Inês. Ainda fragilizada pela violência que a intervenção cirúrgica representou ao seu organismo, vive um momento de recuperação, que é bem diferente de viver doente. Essa recuperação pode durar meses, mas é uma recuperação e não uma doença e isso muda tudo. Mas, algumas mudanças são mais aparentes por ficarem na vitrine social dos nossos hábitos cotidianos. Quando nos lembramos da Dona Inês, sem medo de errar podemos compor nessa imagem mental brincos grandes e coloridos, cabelos louros, calças, uma blusa leve e um perfume que marca o ambiente. Junto com os adereços e acessórios que enfeitam seus dedos, pescoço, orelhas, tornozelos e pulsos, está o cigarro aceso em sua mão. Justamente essa cena é que vai mudar em nossa cidade. Além da cura do câncer, a Dona Inês está no caminho da cura do vício do tabagismo. Esse é um vício como qualquer outro, que precisa ser tratado como um problema de saúde, já que o tabagismo por si é uma doença.

Estamos todos confiantes nessa cura também e me sinto muito tranquilo em falar do assunto, já que faz um ano que parei de fumar. Dona Inês encontrou forças para superar tudo isso. Sou testemunha de como foi difícil trilhar esse caminho. Lembrava o tempo todo de Fernando Pessoa. “Temos que construir o barco navegando”. Ao tempo que se recuperava da cirurgia, que lhe custou uma fenda que cruzava verticalmente todo seu abdômen, vivia o período de desintoxicação do cigarro que fumara a vida toda. Naquele estado, tossir não é uma tarefa fácil. Depois toda nossa preocupação passava em torno da possibilidade do desenvolvimento de uma pneumonia. Eu tive três pneumonias que se sucederam no período imediato que deixei o hábito de fumar. Sabia que isso poderia acontecer com ela. Toda a secreção, que não é pouca, se acumula nas paredes do pulmão e o organismo não tem tempo de absorver essa função biológica. Tal situação cria um ambiente propício para o desenvolvimento de processos virais e bacterianos. Com o organismo fragilizado tudo fica conspirando pra coisa dar errado. Mas toda a sorte do mundo fez com que ela tivesse uma reação diferente da minha. Ao invés de jogar para dentro do pulmão, aos poucos a secreção se acumulou no estômago e como seu intestino estava praticamente parado acabou vomitando. Tal situação aconteceu por três vezes. Logo depois a sensação do mais absoluto alívio e desintoxicação.

Daqui para frente temos como prioridade falar com as pessoas sobre tudo que aprendemos com essa experiência. De garantir as condições para a Dona Inês percorrer o caminho da recuperação de sua saúde. Todos estamos torcendo para que o tabagismo não retorne ao seu cotidiano, já que queremos ela por todo tempo possível em nosso cotidiano. Eu e meu irmão agradecemos a todos que nos ajudaram, em especial ao Dr. Ricardo Breigeiron, à Dra. Laura Aita e a Dra. Carla Bochi. Ao Dr. Rafael que cuidou do período pré-operatório e ao outro Dr. Rafael que cuidou do pós-operatório. Ao Dr. Guilherme, que carinhosamente chamava de amigo imaginário pela coincidência dele aparecer sempre quando tinha da sair do quarto. Depois de uma semana de coincidências suspeitei que o tal doutor não existia e passei a chama-lo de amigo imaginário. Às vésperas da saída do Hospital, a Dona Inês me apresentou a ele dizendo que esse era seu amigo imaginário. Eu que, por um momento, suspeitei da existência desse médico misterioso que aparecia e desaparecia como um toque de mágica.

Um agradecimento a todos que nos ajudaram, a todos que se envolveram, a todos que torceram e, falo também, àqueles que torceram contra, já que ao vencer essa etapa percebemos que somos muito fortes. Registro para que todas as forças do universo conspirem pela justiça e pelo equilíbrio. Desejo que retorne para cada um o dobro da intensidade do sentimento a nós dispensado. Outra edição tinha escrito um pouco sobre a vida desta mulher e alguns leitores de minha confiança, antes mesmo da publicação, me alertaram sobre a agressividade daquelas palavras. Respondi dizendo que aquelas palavras retratavam a agressividade que aquelas pessoas nos ofertavam naquele momento difícil que estávamos vivendo. Esse momento passou e olhamos para frente com hábitos mais saudáveis preservando, acima de tudo, a vontade de viver.