domingo, 14 de dezembro de 2008

A câmara de gás do supermercado do Paraguai / 2004

"A luta pelos Direitos Humanos, assim, aponta para uma outra exigência normalmente desconsiderada e que vincula-se a uma ampla reforma ético-cultural do mundo contemporâneo." Marcos Rolim

Quando fiquei sabendo da tragédia humana que ocorreu no Hipermercado Ycuá Bolaños, em Assunção, no Paraguai, fiquei horrorizado pela tragédia em si e, principalmente, com a reação dos responsáveis daquele estabelecimento. Escrevi uma nota que distribuí por e-mail. O jornalista André Pereira, assessor de imprensa do Deputado Adão Villaverde – PT, ao receber a nota em 03/08, sugeriu um novo título para este assunto. Adotei a sugestão e não poderia deixar passar outras observações feitas pela imprensa na cobertura deste fato como a do "olimpiano" Paulo Sant'Anna, que optou por não acreditar no que as notícias estão nos informando. "Não dá para acreditar que no Paraguai, diante de incêndio, as portas de saída sejam fechadas....Não pode ter sido assim." Mas o Correio do Povo, O Sul, o Jornal do Comércio e a Zero Hora estamparam a incompreensível realidade em títulos com letras garrafais. Como os números da tragédia se projetaram em uma impressionante escala ascendente, qualquer informação sobre mortos e feridos se tornaram altamente perecíveis.

O que mais comove nas notícias que temos sobre a tragédia ocorrida no Paraguai, por volta do meio-dia de domingo (01/08), não é o acidente, mas o incidente. Segundo relato de um bombeiro, a maioria das pessoas morreram intoxicadas. Isso porque havia uma ordem de manter as portas fechadas para impedir que as pessoas saíssem do mercado sem pagar. Outro bombeiro relatou que ao chegar no supermercado encontrou as portas fechadas enquanto o estabelecimento pegava fogo. Ao intervir foi recebido com um tiro de advertência disparado pelo segurança do Ycuá Bolaños. O proprietário Juan Pio Paiva e seu filho, apontados como responsáveis pelas ordens dos seguranças, quando foram indagados diretamente disseram que não tinham ordenado o fechamento das portas. Inclusive apontam como responsável o gerente que teria morrido no incêndio.

O fogo iniciou no subsolo, onde foram encontrados vários corpos carbonizados no interior dos carros, e teria começado por um vazamento de gás. Ao fechar as portas do mercado, o estabelecimento se transformou em uma grande câmara de gás, que provocou o desmaio relatado pelos sobreviventes da tragédia. Uma menina de nove anos que estava com seu irmão - de seis anos - disse lembrar de sua perna pegando fogo, mas pela fumaça intensa acabou desmaiando e quando acordou estava em uma viatura policial. Os irmãos foram comprar iogurte no supermercado.

Incêndios acontecem e nos indignamos quando somos surpreendidos por falhas que poderiam evitar o acidente. Porém, nesse caso podemos perceber claramente qual foi a principal preocupação quando as chamas consumiam o supermercado. Até que ponto os responsáveis pelo estabelecimento estavam dispostos a chegar para defender o patrimônio. Essa violência é regida diariamente, em doses homeopáticas, ultradiluídas, capaz de disfarçar-se no meio da publicidade. O fato chocou comunidades internacionais. A ajuda humanitária às vítimas do incêndio está sendo feita de várias partes do mundo. O incêndio revelou alguns princípios que precisam ser repensados. A situação não se revelaria nas relações institucionalizadas em que os seres humanos são resumidos a consumidores e suas vidas são tratadas e compreendidas a partir de uma tabela numérica. Precisamos, urgentemente, humanizar nossas relações.
Charles Scholl
falecomcharles@pop.com.br
Porto Alegre, 05 de agosto, de 2004.

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